Setembro Amarelo

                        O mês de setembro com sua promessa de renovação e florescimento, é uma época sensível para acolher a vulnerabilidade de quem já não consegue se deixar tocar pelo calor da vida.

                        As pessoas que se encontram solitárias, presas num mundo frio e sem esperança, podem estar se sentindo desta forma por uma infinidade de motivos, ou seja, podem estar apresentando sintomas pertencentes a diferentes quadros de transtornos mentais ou estarem ou devido à dramas e tragédias que as tornam impotentes e frágeis diante de dores que não conseguem suportar ou aplacar. E neste desespero e deserto emocional podem ser levadas a pensar em encontrar alento no desconhecido apelo do suicídio.

                        O “Setembro Amarelo” portanto, foi uma campanha que surgiu para dar voz e retirar o véu que encobre o drama dessas pessoas que sofrem em silêncio e desta forma se tornam invisíveis a sociedade, somente sendo “ouvidas” quando suas angústias ceifam suas vidas.

                        Como o suicídio é um fenômeno quase epidêmico, afetando diferentes gerações, não poupando nem infância e a juventude, está levando os profissionais comprometidos com a saúde mental à buscarem recursos para evitar que novas tragédias pessoais e familiares ocorram. Estudos portanto, tem sido promovidos, com o estabelecimento de hipóteses que possam explicar os possíveis desalentos existenciais que estão permeando estas tragédias. Já é unânime a compreensão de que o suicídio possui diferentes e variadas causas, sejam individuais ou sociais e discorrer sobre todas não seria possível no momento, mas é oportuno refletir sobre um fenômeno recente que vem impactando os indivíduos e a sociedade e que tem tomado vulto nas últimas décadas em função do advento mais maciço da tecnologia e das redes sociais.

                        Com o advento portanto da internet, a velocidade das informações, a impermanência das relações, a exigência da felicidade a qualquer custo, vão tornando as pessoas mais vulneráveis à solidão, levando-as a guardar para si, qualquer defeito ou fragilidade que não correspondam ao ideal de perfeição e felicidade que a mídia exige.

                        A exposição nas redes sociais pode se tornar um cruel meio de estabelecer comparativos entre a vida das pessoas, e, tentar comparar pessoas e vidas é definitivamente uma forma de privar a si mesmas das possibilidades de realização e completude. Vivemos a sociedade dos comparativos, na qual nada escapa, seja talentos, habilidades, notas ou peso, no entanto, uma das comparações mais destrutivas é a das dores emocionais.  Compará-las, acima de tudo, é não respeitar as diferenças no sentir, é ignorar os ciclos, a intensidade e o impacto dos traumas na vida de cada um, impossibilitando a empatia e o acolhimento.

                        Acrescidas a velocidade e a sensação de insustentabilidade da vida moderna, que ao negligenciar e exilar a tristeza, exilaram os sofredores, observou-se que existem muitos mitos e ideias equivocadas sobre a tristeza e o suicídio, logo, algumas crenças precisam ser desmistificadas e esclarecidas, uma vez que se tratam de ideias que inviabilizam a ajuda adequada e a intervenção necessária. Talvez por isso, campanhas de conscientização como a do “Setembro Amarelo” sejam uma forma de usar construtivamente a mídia, não mais para comparar e excluir, mas para agregar, acolher e divulgar as informações necessárias e verdadeiras.

                        Setembro amarelo, portanto, tenta superar o mito de que falar de suicídio é perigoso ou incentivador, retirando a crença de que pessoas que ameaçam suicidar-se nunca o farão ou ainda, superando o preconceito de que estamos blasfemando ao nos referirmos com respeito e compreensão deste tema tão estigmatizado.

                        Esta campanha ao retirar das sombras o suicídio, retirou do exílio as pessoas que ao tentar matar uma dor insuportável acabam por retirar a própria vida. Grande parte delas, não o fariam se tivessem tido oportunidade de expressar suas angústias, de desabafar inclusive as ideias que também lhe parecem absurdas e conflitantes. As pessoas que pensam em retirar a vida confidenciam que querem apenas silenciar e parar a dor que sentem, mas que gostariam muito de poder evitar esse fim. Confidenciam que se sentem um peso para a família e acreditam realmente que sua ausência seria um alívio para todos aqueles que com elas convivem. 

                        Confessam que não se sentem seguras consigo mesmas, temem agir por impulso e fazerem “uma besteira”, ou seja, paradoxalmente temem por suas vidas. Muitas pessoas, portanto, podem não ter feito planos de retirar a vida ou o que chamamos tecnicamente de ideação suicida, mas podem realmente terem se atirado à morte sem premeditação, levadas pelo impulso de aplacar a dor, atitudes que nos leva a perceber que o que está em questão é a dor da alma humana. Logo, em Setembro Amarelo estamos tratando da vida e de seus desafios.

                        A campanha visa demonstrar que é urgente cuidar, proteger e amparar as pessoas, suas angústias e medos. Tratando-se de um movimento que visa resgatar o direito à tristeza, aos lutos, às lágrimas, necessidades humanas tão negligenciadas no universo das aparências que impõem ditaduras de perfeição, como as da beleza, do sucesso e da felicidade. Permitir que as pessoas percebam, aceitem e expressem suas fragilidades, medos e impotências, permite que competências sejam desenvolvidas, através do aprimoramento de habilidades como resiliência, tolerância à frustração, enfrentamento de medos e superação de traumas. Desenvolver em todos a virtude do acolhimento sem julgamentos, comparações e discriminações. Que a verdadeira generosidade e doação prevaleçam, permeadas pela caridade genuína que ama sem estabelecer condições, priorizando sempre a evolução humana. 

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