“Pestinhas”, “Quietinhas”, “Preguiçosas”, “Agitadas” ou “Choramingas” são “rótulos” que aprisionam as crianças e condenam seu futuro emocional

“Pestinhas”, “Quietinhas”, “Preguiçosas”, “Agitadas” ou “Choramingas” são “rótulos” que as aprisionam e condenam seu futuro emocional

“Seria bom se pudéssemos pensar na auto-imagem da criança como cimento fresco. Imagine que cada uma das nossas respostas à criança deixe uma marca e molde seu caráter e sua personalidade. Isto coloca pais e mestres sob o liame de uma obrigação permanente. Seria melhor que pudéssemos ter a certeza de que nenhuma das marcas por nós deixadas seja do tipo de que venhamos a nos arrepender quando o cimento endurecer…Que nenhum adulto subestime o valor de suas palavras”.
Haim Ginott
Essa frase de Haim Ginott (1, pg. 68) nos remete à refletir sobre o impacto de nossas ações e palavras sobre a formação psicológica das crianças, uma vez que é comum ao observar o comportamento errado de uma criança, os adultos à sua volta criticá-la, rotulando-a a partir de sua inadequação e, desta forma, fazendo surgir o “pestinha”, “o preguiçoso”, o “teimoso”, a “mosquinha morta” e/ou as tantas outras denominações pejorativas com o poder de minar a auto estima infantil, ainda tão vulnerável à opinião e aprovação daqueles que lhes são caros, mas que deveriam ter discernimento e maturidade para acolhê-las e educá-las.
Os rótulos podem se transformar em “moldes” a condenarem as crianças a serem vistas de uma maneira inflexível e estereotipada, enclausurando-as em seus comportamentos taxados de inadequados e inconvenientes. As crianças tem a tendência a seguir as expectativas e projeções dos adultos e se sentem julgadas e condenadas por seus olhares recriminadores, comumente presentes no processo educativo da aquisição das regras e normas sociais: (Discutido em texto anterior, conforme link² indicado):
“No processo de “aprendizagem das regras sociais”, há três reações básicas que o adulto tende a tomar frente a espontaneidade, desconhecimento e/ou “desobediências” da infância, pois há resistências naturais por parte das crianças, de se enquadrarem no conjunto de “nãos” que as rodeiam:
– Os adultos podem reprovar a ação, delimitando para a criança que apenas sua atitude está incorreta, preservando seu valor pessoal. Por exemplo, explicar que não deve riscar a parede, mas que pode fazer seus desenhos em uma folha de papel. Sua integridade como pessoa e sua necessidade de expressão são respeitadas e os limites são traçados. Atitude apropriada e saudável.
– Os adultos podem censurar a criança, não estabelecendo distinção entre seu ato “incorreto” e sua pessoa, induzindo-a à formar uma imagem negativa de si mesma. Dizer para a criança que “é feia” por estar rabiscando a parede, passa a mensagem de que ela é um ser errado e sem valor. As crianças acham que os adultos sabem de tudo e que se eles a julgam inadequada, sentem-se humilhadas, e, acreditam nas suas palavras. Estabelecimento direto de “rótulo”.
– Ou ainda, uma terceira possibilidade de reação pode ser a ‘gelada’, atitude na qual os adultos passam a ignorar a existência da criança, no intuito de que ela perceba que errou. Esta atitude de indiferença e hostilidade passiva, gera na criança uma crença de que não é digna de existir. No caso da parede rabiscada, os adultos podem repreender a criança e passar a não interagir com ela. Estabelecimento indireto de “rótulo”.
Ou seja, pontuar o comportamento inadequado é necessário, mas sem menosprezar, humilhar ou ignorar a criança, pois na infância pode-se desenvolver instalar a vergonha tóxica de sentir-se inadequada, rejeitada ou desprezível, como se tivesse nascido com um ‘defeito de fábrica’.”
Portanto, refletir sobre os “defeitos de fábrica” ou “rótulos” que impomos às crianças, analisando o que efetivamente retratam, focando nas necessidades reais que seus comportamentos inadequados representam, pode nos ajudar a libertá-las de seus estigmas e ajudá-las a integrar as emoções que tais comportamentos encobrem. Lembrando que os comportamentos inadequados, principalmente nas crianças, estão encobrindo emoções negativas, que a estão sufocando e precisando de formas adequadas e construtivas de expressão. É preciso ajudá-las a construírem “escoadores”, “canais” e “diques” para que suas emoções possam fluir sem sobrecarregá-las, pois raiva, medo, tristeza ou frustração são emoções que tendem à impactar suas “represas emocionais”.
Há uma reflexão de Violet Oaklander (3, pg. 232) acerca do quanto as crianças estão tentando denunciar suas angústias e do quanto é preciso que nós adultos aprendamos à decifrá-las: “Crianças passivas, retraídas, subjugadas, talvez até mesmo as catatônicas, também estão “pondo para fora” alguma coisa da sua própria maneira. De fato, todos nós geralmente nos encontramos no processo de pôr alguma coisa para fora de uma maneira única e só nossa.” Infelizmente, muitas crianças são julgadas e discriminadas por não conseguirem “pôr para fora” suas emoções da maneira adequada e conveniente para seus cuidadores, que também, em geral, não aprenderam a acolher e respeitar suas próprias crianças interiores.
Esquecidos das angústias da infância, nós adultos sempre corremos o risco de etiquetar as nossas crianças de hoje e vendo-as através de “rótulos”, podemos encarcerá-las em estereótipos como “Pestinha”, “Preguiçoso”, “Manhoso”, “Agitada”, “Mosquinha morta” ou aprisioná-las ainda nos tantos outros estigmas que, diariamente, são tatuados no comportamento e na alma das crianças.
Outro risco que podemos incorrer ao rotular crianças está no fato de não percebermos que possam estar precisando de ajuda profissional especializada, pois suas dificuldades podem estar relacionadas à doenças psicológicas ou psiquiátricas.
Com o único propósito de libertar as novas gerações, a caracterização à seguir, mostra alguns dos estereótipos mais comuns que pais, familiares ou professores costumam fazer uso. Muitas vezes, existe uma crença errônea de que ao usá-los, as crianças tentarão se esforçar para evitá-los ou negá-los, o que é pouco provável, pois as crianças, devido à sua vulnerabilidade e necessidade de sobrevivência emocional, buscam atender às demandas dos adultos, sejam conscientes ou inconscientes, tentando adaptar-se ao rótulo.
A presente discussão apresentará os perfis que se encaixam aos rótulos mais comuns, abordando possíveis sentimentos que podem estar gerando comportamentos inadequados (“Dificuldades e sentimentos subjacentes”), aliados com os sentimentos que podem estar encobertos e precisam ser despertados (“Potencialidades adormecidas”), e, para tanto, são propostas atividades (“Atividades indicadas”) para despertar essas potencialidades adormecidas.
Faz-se necessária advertir novamente que “perfis” são indicadores e as atividades propostas são sugestões que não se limitam a atender às necessidades de cada grupo de dificuldades, mas podem e devem ser expandidas e associadas na intervenção em qualquer trabalho de expressão emocional, sendo útil para crianças em diferentes faixas etárias e com diferentes modos de “pôr para fora” suas necessidades emocionais. Pelas similaridades das características e das necessidades emocionais, podemos agrupar as crianças em 2 grupos, à saber, grupo das crianças que sofrem por serem agressivas, ansiosas e o grupo das crianças retraídas, dependentes, displicentes ou bem dotadas:

CRIANÇAS “PESTINHAS”
Agressivas – Desobedientes – hostis

As crianças com predominância de comportamentos agressivos, hostis e desafiadores são normalmente rotulados de “pestinhas”, e estão sofrendo com a má administração das emoções de raiva e medo. Possivelmente estão vivendo situações de negligência, violência ou opressão, que não estão conseguindo entender ou externar.
São crianças que falam alto, cutucam, provocam os outros e, por tumultuarem também podem ser consideradas, segundo alguns autores (4, pg.5 ), de “Crianças que ninguém quer” e nem mesmo elas se toleram, por isso, em seus comportamentos sem limites estão pedindo ajuda, implorando que os adultos ao seu redor lhes contenham, sejam capazes de limitá-las, sem julgá-las ou perder o controle, pois descontroladas, elas já se sentem.
Dificuldades e sentimentos subjacentes
Crianças agressivas costumam ser reativas por serem muito sensíveis às atitudes das outras pessoas, pois quase sempre as interpretam como “provocações”, insultos ou discriminações.
Fazendo um “estilo” de comportamento “não estou nem aí”, provocam os adultos com sua postura aparentemente inconsequente, de não pensar antes de agir, uma vez que a impulsividade faz parte de seu funcionamento.
Podendo estar expostas à situações de violência, subjugação ou humilhações, sentindo-se cerceadas, aprenderam a se defender, agredindo. Trata-se da única forma com a qual sabem se relacionar. Portanto, sentimentos de medo, mágoa, frustração e ira, estão soterrados atrás das atitudes hostis.
Segundo George Bach & Herb Goldbery³: “Pelo fato do fluxo de energia agressiva dentro da maioria das pessoas em nossa sociedade haver sido seriamente bloqueado, um primeiro passo importante neste processo de crescimento será a liberação dessas energias, para longe da passividade, estagnação e resignação, no sentido de um padrão interacional afirmativo e fluido.”

Potencialidades adormecidas:
Pela mescla de medo e raiva, as crianças comprometem sua capacidade de iniciativa, seu potencial de liderança construtiva e sua capacidade criativa.
Limitam sua vivência de ternura e de partilhar momentos de amizade e aceitação com colegas ou professores/cuidadores.
Atividades Indicadas:
Encontrar modos apropriados e construtivos de demonstrar a raiva é um dos grandes desafios:
Caso a criança tenha quebrado algum brinquedo durante um ataque de fúria, acalmá-la e ajudá-la a “consertar” o brinquedo, na medida do possível, usando durex ou cola. A atitude do adulto “significativo” deve ser a de compreensão e acolhida ao explicar para a criança o que houve, que para tudo tem solução e que entende que aquela criança é “boa”, mas se descontrolou.
Fazer uso de perguntas como: “Que tipos de coisas te deixam brabo? O que você faz com essa brabeza…onde a guarda ou esconde? O que você pode fazer para evitar se meter em confusão quando está com raiva? Levando-a à perceber o que sentem e à pensar antes de agir.
Ativar o “Cantinho da raiva”, através de brincadeiras com uso da coordenação motora ampla: boliche, socar almofadas, atirar bola na boca do palhaço, brincar de “morto-vivo”, proporcionam “escoadouros” físicos para “drenarem” suas emoções. Igualmente ou associados, o relaxamento dinâmico como “rolinho” e o uso de respiração podem diminuir a tensão corporal.

Crianças Agitadas
Inquietas – Ansiosas – Agitadas

As crianças inquietas e ansiosas, muitas “diagnosticadas” pelo coletivo como Hiperativas, possuem expressiva dificuldade na socialização, sendo pouco apreciadas pelos professores e rejeitadas pelos amigos, pois todos ficam saturados com sua inquietação, inclusive elas mesmas. Sua auto-imagem é negativa, pois além das contínuas críticas, não apresenta bom desempenho nas atividades que executa, incapaz de fixar a atenção e/ou dedicar-se às tarefas propostas.
As crianças inquietas ou ansiosas, são normalmente impulsivas, e precisam estabelecer um autocontrole sobre seus rompantes e impulsividade. Ávidas para serem aceitas, querem mostrar suas habilidades, o que podem torná-las inoportunas, fazendo-as interromper professoras e colegas, tumultuando a sala de aula, exigindo muita habilidade e paciência dos professores e da escola em geral.
Advertimos novamente, que é comum as crianças com ansiedade ou submetidas à situações estressantes, apresentarem comportamentos parecidos com crianças hiperativas ou com crianças com instabilidade de atenção e por essa razão, a consulta com um especialista é necessária para apontar o diagnóstico correto.
Dificuldades e sentimentos subjacentes
Crianças impulsivas, por sua dificuldade de se autocontrolar, não conseguem se concentrar nas tarefas que realizam, estando à mercê dos estímulos do meio, variando seus interesses conforme os sons, odores, imagens ou pessoas que lhes aturdam os sentidos.
Sua capacidade produtiva está constantemente sendo desperdiçada pela interrupção e descontinuidade de seus empreendimentos. Ajudá-la a se organizar, irá oportunizar que atinja seus objetivos, propiciando que a criança perceba o prazer e a realização de uma tarefa concluída e bem feita.

Potencialidades adormecidas
Sua capacidade de concentração e de usufruir o momento presente encontra-se comprometidas e as crianças estão exaustas de se sentirem aceleradas e “tumultuadoras”.
Há um desejo muito grande de ter amigos e de com eles compartilhar brincadeiras, sentindo o prazer de serem aceitas e apreciadas sejam pelos professores ou pelos colegas.
Atividades indicadas
Ajudá-las à perceber o que estão fazendo, buscando fazê-las observar e prestar atenção em um estímulo de cada vez, ainda que seja por curtos períodos de tempo, pode ajudá-las a se “centrar”. Outra forma de ajudá-las a focarem a atenção é oferecer um número reduzido de opções que as façam parar e pensar para decidir.
Desenvolver a capacidade de esperar, de ouvir, de ver e de sentir, pode oferecer oportunidade para que desenvolva o autocontrole. Oportunizar uma maior consciência corporal através de atividades proprioceptivas, auxiliando-as à entrarem em contato com seus corpos e suas sensações, podem ajudá-las a voltarem para si mesmas.

Crianças “Quietinhas”
Retraídas – Tímidas – Inseguras

As crianças tímidas, inseguras ou “quietinhas”, normalmente apreciadas por não tumultuarem, estão aprisionadas no medo, na necessidade de agradar, de tudo fazer e não fazer, para evitar a rejeição ou críticas. Se retraem para evitar desagradar aqueles adultos que lhes são necessários e cuja aprovação lhes é fundamental.
Normalmente, com baixa auto estima, a criança costuma ver a si mesma como desajeitada e inadequada, resistindo à participar de interações grupais, tendendo a isolar-se progressivamente, como se fosse construindo um muro de proteção. Comportamentos de esquiva e evitação são comuns.
Os adultos precisam oferecer a essas crianças oportunidades de expressão, sem críticas ou julgamentos, para que se sintam seguras e aceitas. As crianças retraídas costumam calar seus medos, pois temem que os adultos a ridicularizem ou a considerem covardes. Crianças pequenas misturam fantasias com realidade, por isso seus medos podem ser tão ameaçadores, altamente potencializados e incompreensíveis para os adultos.
Dificuldades e sentimentos subjacentes
Quando estão refugiadas em seus “mundinhos” podem aparentar ser esnobes, tímidas, inibidas ou dóceis, e muitas vezes, podem parecer “bobas” e medíocres, estando sujeitas à “bullying” por isso. Às vezes, as crianças ficam desajeitadas ou dispersas por dificuldades de fixar a atenção e de concentrar-se, devendo ser verificado se não estão com TDA (Transtorno do Décifit de Atenção)
Sentem-se solitárias, desamparadas, rejeitadas e inadequadas, portanto, a insegurança e o medo de errar costumam embotar sua criatividade e anular sua iniciativa e para tanto tentam anular seus desejos e necessidades.
Potencialidades adormecidas
São crianças que guardam um anseio muito grande de terem amigos, de “fazer parte” e com sua aguçada capacidade de observação e sensibilidade, percebem sua dificuldade de inclusão e de serem aceitas.
Igualmente, as crianças almejam por serem espontâneas, desejando serem mais abertas e fluentes para serem positivamente notadas e valorizadas.
A agressividade construtiva igualmente se encontra sufocada e caberia enfatizar seu lado positivo, fazendo uso das palavras de Alexandre Nucci³: “É preciso encarar a agressividade não como um defeito ou anormalidade, mas como uma necessidade básica que todos nós temos para viver em sociedade…é o que se chama instinto de sobrevivência.”
E o autor acrescenta sua importância através da metáfora da floresta: “Desta forma, as árvores que nascem entre outras árvores tendem a crescer na mesma proporção que suas vizinhas para não serem sufocadas por elas. Precisam de sol para sua sobrevivência e então se desenvolvem até chegar na altura das outras e conseguir usufruir dos mesmos benefícios.”
Atividades Indicadas:
Atividades que ofereçam grande probabilidade de sucesso são indicadas para que passem a se sentir mais confiantes. Ao mesmo tempo, evitando forçá-las à interagir, respeitando seu tempo, restringindo-se à incentivá-las. Pintura com os dedos que não precisem ser esteticamente previsíveis e atraentes, oferecem meios de expressão não sujeitos à avaliações e notas. Maleáveis e dóceis, materiais como água, farinha, massinha e argila, também oferecem a plasticidade necessária para deixar “fluir” os sentimentos.
As atividades portanto, devem estar voltadas para desenvolver sua iniciativa e segurança, com o uso de elogios sinceros e o cuidado permanente de não criticá-las pois excesso de autocrítica já lhes é típica.
Brincadeiras que trabalhem a respiração: bolinha de sabão, língua de sogra, encher balões, enfatizando o soprar, o aspirar e o soltar o ar dos pulmões, com o trabalho do diafragma e abdômen, são muito eficazes para liberar tensões corporais.

Crianças “Choramingas” ou “Carentes”
Dependentes – “Grudam-se às pessoas” – chorosas

As crianças parecem desnutridas afetivamente e se agarram a qualquer adulto que lhes preste alguma atenção e por essa demanda constante de atenção, podem deixar os amigos exauridos e provocar que as rejeitem.
Uma ostensiva necessidade de proteção pode surgir por superproteção ou pela carência de atenção ou cuidados de seus responsáveis ou ainda, por outras circunstâncias que as fazem ter medo de crescer. Almejam permanecer “pequenas” e serem para sempre cuidadas e protegidas. Críticá-las não as ajudam, apenas as deixam mais impotentes.
Maria de Melo Azevedo³, faz uma importante analogia entre o educar e o ensinar uma criança a andar, pois ambos os casos necessitam de sábia e dosada interferência do adulto:
“Tomando como exemplo uma criança que começa a andar: se o adulto não aguenta vê-la desequilibrar-se e cair, e a ampara o tempo todo, nega-lhe a oportunidade única de experimentar seu desequilíbrio – indispensável para que construa seu equilíbrio -, de enfrentar o próprio medo da aventura de estar de pé sozinha. Mas é claro que o adulto não pode simplesmente soltá-la: é ele quem tem que cuidar de que a criança não se exponha a situações realmente perigosas, com as quais não tem condições de lidar.”
Dificuldades e sentimentos subjacentes
Sentimentos de impotência, dependência afetiva e insegurança obstruem suas iniciativas, sua curiosidade para conhecer e desvendar o mundo, desejo inato da infância.
Potencialidades adormecidas
Independência e autonomia encontram-se sufocadas debaixo de seus medos de enfrentar as situações fora de casa. Estimular a independência e a confiança em si mesmas, ajudando-as à se entregarem a “aventura de estar de pé sozinhas”.
Atividades Indicadas
Realizar tarefas com perspectivas de êxito, incentivando-as à tomarem decisões e à serem autônomas.
No caso de apresentarem comportamentos regressivos, não adequados às suas idades cronológicas, como falas ou comportamentos infantilizados, podem se tornar uma estratégia educativa, acolhendo-as na idade que imaginam estar, brincando de bebês, para em seguida, brincarem de “voltar a idade que realmente tem”, enfatizando as vantagens de terem essa idade.
Às vezes, as crianças apresentam atitudes infantilizadas por acreditarem que os adultos assim desejam, pois costumam mimar os bebês e as crianças pequenas, reforçando sua crença.

Crianças “Preguiçosas”
Displicentes – atrapalhadas – indiferentes
Dificuldades e sentimentos subjacentes
As crianças negam para si mesmas que tem medo ou que desistiram e para negar, podem fazer uso de atitudes arrogantes ou de indiferença que provocam ainda mais a desconfiança e irritação dos adultos. Dificuldades reais de realizar determinada tarefa com a “desculpa” do não querer ou do “estar nem aí”
Desmotivação, desistência de si mesmas e considerar-se um fracassado antes mesmo de tentar, são os conflitos inconscientes que as dificultam.
Nas palavras de Vera Barros de Oliveira³: “A criança só estabelece relações cognitivas entre objetos que lhe são significativos, corporal, pessoal e afetivamente.” Ou seja, a motivação para aprender vem normalmente das vivências afetivas gratificantes e desta forma se dá a aprendizagem genuína. A superestimulação racional pode encobrir profundos sentimentos de desamparo emocional e este tipo de aprendizagem, trata-se de fuga e defesa das dores da vida.
Potencialidades adormecidas
Sua capacidade produtiva está comprometida, envolta em um medo de decepcionar tanto os demais quanto a si mesmas. Possuem um medo muito grande de não serem boas o suficiente e por isso vão contra uma das premissas básicas da infância que é a curiosidade, a vivacidade e o anseio por crescer e se tornar independente.
Atividades Indicadas
Incentivo e propostas de atividades motivadoras, aliadas à situações nas quais possam ser bem sucedidas é muito importante para que despertem sua motivação.
Atividades proprioceptivas, para desenvolver a autoconsciência.
Exercícios expressivos como os que constam no “Cantinho da Raiva ou das emoções”.

Crianças “Comportadas demais”
Obedientes – gentis – “bem dotadas”

As crianças que estão permanentemente tentando acertar ou ser gentis, muitas vezes, estão pagando um preço muito alto para serem apreciadas, ou seja, estão negando suas próprias necessidades para ser um reflexo das expectativas dos adultos que lhes são caros e, progressivamente, vão perdendo o senso de si mesmas e de seu direito de existir. Nas palavras de Violet Oaklander (5, pg. 305):
“A criança que desenvolveu o hábito de evitar a culpa tentando nunca fazer nada errado precisa de ajuda para separar-se das outras pessoas que participam de sua vida. Precisa de ajuda para descobrir quem ela é, quais são as suas necessidades, quais as suas vontades. Precisa de ajuda para aprender seus desejos, opiniões e pensamentos. Precisa de ajuda para fazer escolhas claras e assumir responsabilidade por essas escolhas.”
Essas crianças tentam se mimetizar com o ambiente e com os desejos alheios para não serem rejeitadas, conforme elucida Alice Miller (6, pg. 45): “O que está faltando, acima de tudo, é a estrutura na qual a criança pudesse experenciar suas sentimentos e emoções. Em lugar disso, ela desenvolve algo de que a mãe necessita, o que certamente salva sua vida imediata (o amor da mãe e do pai), mas pode impedi-la de ser ela mesma por toda a vida.” O drama das crianças consiste, portanto, no abandono de sua identidade.
Dificuldades e sentimentos subjacentes
Reduzido senso do “eu”, querendo agradar os adultos que lhes são caros em detrimento de suas necessidades. Logo, submissão, medo de rejeição e expressiva necessidade de aceitação.
Há, por parte dos adultos, expectativas diretas ou veladas, quanto ao seu desempenho e essas cobranças geram ansiedade e podem sucessivamente bloquear o desenvolvimento saudável de suas potencialidades, ao exigirem que a criança seja um “mini adulto” exemplar, conforme afirma Edouard Claparède³: “Para as crianças, a brincadeira é o trabalho, o bem, o dever, o ideal da vida: exigir da criança um esforço de trabalho fundamentado em algo diferente do ato de brincar equivale a agir como o insensato que, em plena primavera, põe-se a sacudir a macieira em busca de maçãs: em vez de recolhê-las derruba as flores, privando-se dos frutos que o outono prometia.”
Potencialidades adormecidas
Adormecida está a sua capacidade de sentir a si mesma, completamente desconhecida de seu próprio potencial, com o embotamento de sua capacidade de iniciativa, criatividade e espontaneidade. Sua infância fica comprometida, envolta em obrigações e expectativas de eficiência e desempenho que as aturde.
Atividades Indicadas
Incentivá-las a dizerem o que desejam, o que pensam ou o que preferem, estimulando-as à realizarem suas próprias escolhas, sem tentar induzí-las.
Mostrar que podem ser aceitas e amadas, respeitando seu “jeito de ser”, pode libertá-las do jugo de se submeterem a ser quem os adultos querem. Portanto, despertar a espontaneidade e o lado lúdico das vivências é devolver a infância a essas crianças.
A presente discussão, provavelmente não conseguiu abranger todos os rótulos passíveis de serem impostos às crianças e tampouco esta era a pretensão, pois as características descritas tampouco tem o objetivo de realmente definir e enquadrar crianças. Enfatizamos que a intenção é a de oferecer reflexões e material para que possamos compreender algumas atitudes infantis, que ao refletirem dificuldades emocionais, podem servir de instrumento para a busca de uma educação mais construtiva e saudável. Considerar as necessidades emocionais das crianças, ajudando-as à lidarem com seu complexo universo dos sentimentos podem criar gerações mais conscientes e totalmente avessas aos rótulos.
Acima de tudo, respeitar a individualidade de cada criança, sem expectativas adultas, sem comparações ou imposições é o melhor meio de ajudá-las a amarem a si mesmas, conforme ressalta Fraçoise Dolto¹:
“Gostaria de dizer primeiro que é muito ruim dar a uma criança uma outra criança como exemplo. Dir-se-ia que este homem experimenta sentimentos de inferioridade por ser pai de uma criança que não obtém sucesso, e que gostaria de ser pai de outra. É o que significa dar como exemplo uma criança de outra família em vez de ressaltar as qualidades de seu próprio filho e de estimulá-las. Educar é ajudar a criança a dar o melhor de si mesma, e nunca encorajá-la a imitar qualquer outra.”
Todo adulto que se coloca disponível para compreender e acolher as necessidades infantis, torna-se um “adulto significativo” na educação e desenvolvimento desta criança, o que o torna capaz de imprimir esperança e deixar “marcas” profundas e construtivas na sua vida.

Referência Bibliográfica
1 – Faber, A. & Mazlish, E. – Pais Liberados, filhos liberados. São Paulo: IBRASA, 1985
2 – https://refletindoapsicologia.com/2017/04/06/vergonha-timidez-e-fobia-social-origemdesenvolvimentocaminhos-de-superacao/
3 – https://refletindoapsicologia.com/2017/02/10/refletir-a-crianca/
4 – Redl, F. & Wineman, D. – A criança Agressiva. São Paulo. Martins Fontes. 1985
5 – Oaklander, V. – Descobrindo crianças – a abordagem gestáltica com crianças e adolescentes. São Paulo. Summus. 1980
6 – Miller, A. O Drama da criança bem dotada – como os pais podem formar (e deformar) a vida emocional dos filhos. São Paulo. Summus, 1986

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