Mães Tóxicas na “Vida” dos filhos adultos

As madrastas tão temíveis e ameaçadoras dos contos de fadas, talvez sejam a melhor personificação do lado sombrio das mães tóxicas, que assombram seus filhos não importa a idade. Há pais tóxicos também, mas como o primeiro acolhimento humano é oferecido pela função materna, esta reflexão versará mais especificamente sobre as “mães”.

As mães tóxicas estabelecem modelos de relacionamentos abusivos, no qual seus desejos e necessidades, sejam conscientes ou inconscientes, são sobrepostos à própria existência daqueles que ela diz amar, considerando-os como instrumentos de realização de seus anseios.

Quando sente-se insatisfeita com a própria existência, a mãe emocionalmente tóxica cobra dos filhos que algo seja feito para apaziguar sua ansiedade, e então, incoerentes queixas e cobranças são desencadeadas.

         Controle é a marca de sua atuação, que pode ser exercido de forma direta com intimidações e humilhações, envolta em exigências, “decretos” autoritários e constrangedores, aniquilando a autoestima dos filhos, enfraquecendo sua capacidade de ação e autoafirmação.

Já no controle indireto, há o uso persistente de manipulação, comunicação indireta na qual não há necessidade de explicitar desejos, uma vez que as pessoas manipuladas são levadas a satisfazê-los sem que haja um pedido declarado.

A chantagem emocional está sempre presente, com todo seu potencial de gerar culpas e produzir incertezas, levando os filhos(as) a executarem as “ordens” maternas, sejam estas colocadas de forma veladas ou declaradas.

O controle excessivo intoxica, sufoca e enreda os filhos adultos em uma teia, que os vai emaranhando e aprisionando em uma culpa paralisante que busca saídas improváveis e quase impossíveis, pois quanto mais se debate e tenta escapar, mais a mãe opressora e possessiva se agiganta.

Para a mãe controladora, o anseio do(a) filho(a) de crescer, casar e/ou construir a própria família é vivenciada como uma traição ao seu “amor materno”.  Qualquer movimento de independência e liberdade é visto como uma ameaça que deve ser combatida.

A tônica do relação abusiva materna é o poder, pois a mãe tóxica não quer ser amada ou cuidada, ela quer exercer seu poder sobre os filhos, quer submetê-los aos seus caprichos e desejos, estabelecendo um jogo entre os filhos, tornando-os peões de suas artimanhas.

O comportamento da mãe abusiva é tóxico portanto, para toda a família, podendo gerar rivalidades e intrigas entre os irmãos, através da captação de aliados e formação de discórdias que impedem a união fraterna, que poderia promover a percepção e a identificação das contradições maternas que os levariam a compreensão da teia abusiva e a consequente libertação dos enredados.

Os filhos também costumam ter percepções diferentes em relação aos pais abusivos, pois cada um estabelece um tipo de relacionamento e desempenha uma espécie de papel na dinâmica familiar que, como um todo, acaba por se tornar disfuncional e abusiva. Há irmãos que não lembram das situações emocionalmente abusivas, outros as negam e outros ainda não chegaram a ser afetados.

Há ao menos dois tipos característicos de “reações” frente aos pais abusivos: a submissão e a rebeldia. Ambas passíveis de coexistirem e com caráter ineficaz, uma vez que estão sendo re-ações ao domínio parental, não promovendo ações conscientes e coerentes que promoveriam uma mudança salutar na dinâmica familiar.

Pelo anseio de amor, todo filho se esforça para não enxergar as manipulações e abusos maternos, querendo acreditar que tudo não passa de mal entendidos ou equívocos, preferindo deflagrar guerras fraternas à estabelecer confrontos com o lado sombrio da mãe (ou pai) idealizada. Esta defesa e opressão maternas podem persistir mesmo após seu falecimento, como uma espécie de culto a memória da mãe imaculada, cuja influência tóxica pode estar ecoando na  vida presente dos filhos adultos.

Em geral, as famílias tendem a resistir a mudanças e a tentar perpetuar o “equilíbrio” arduamente conquistado. Há eventos familiares, no entanto, que periodicamente ameaçam este pseudo-equilíbrio e levam seus membros a intensificar medidas de controle. Datas comemorativas são especialmente delicadas, pois a mãe (ou pai) tóxicas tende a ter dificuldade de lidar com celebrações, usando-as como uma oportunidade de exercer seu poder. Tentativas de independência de qualquer um dos membros também abala o núcleo familiar.

Romper as relações tóxicas, requer muita determinação e persistência, pois não se deve subestimar a sedução de uma mãe (ou pai) tóxica quando percebe que seu poder está sendo ameaçado, fazendo-a transformar-se temporariamente em uma mãe “amantíssima”, a mãe tão sonhada pelo filho(a), no intuito de enredá-lo novamente na sua teia.

Todos sonhamos com a mãe sagrada, acolhedora e protetora, mas muitas vezes nossas mães terrenas conseguem ser antimodelos, mostrando-se destrutivas e perseguidoras. Motivadas ou não por suas feridas, suas ações são danosas e geram muito sofrimento aos filhos. Como alegou uma filha sofrida: “Quando minha mãe começa com suas cobranças e culpas, o mundo se torna pequeno e devastador”.

            Sofrimento que possivelmente também tenha sido vivenciado pelos pais tóxicos dentro de suas famílias de origem, provavelmente trata-se de uma “herança emocional” sombria. Um ciclo de (dis)funcionalidade familiar que deve ser rompido e (re)construído, a partir da corajosa percepção da dinâmica destrutiva e da necessidade de confrontá-la e superá-la.

            Como todo processo de libertação, é preciso que saibamos criar um mundo interior para acolher nossas crianças feridas, resgatá-las de suas prisões para que liberte o adulto-filho(a) de sua culpa e o devolva para sua independência e seu direito de existir e de curar sua vida.

A criança-interior-ferida que vive em cada um de nós, sobreviveu à uma infância roubada e encontra-se à espera de uma redenção, conforme denúncia Fernando Pessoa, que ao contar uma lembrança antiga, retrata essa “fé de criança na vida”, quase perdida nos sonhos dos adultos feridos:

O luar quando bate na relva.

Não sei que cousa me lembra.

Lembra-me a voz da criada velha

Contando-me contos de fada.

E de como Nossa Senhora vestida de mendiga

Andava a noite nas estradas

Socorrendo as crianças maltratadas.

Se eu já não posso crer que isso é verdade.

Para que bate o luar na relva?

            Envolvidos neste ideal e carinho da imagem da “grande mãe”, “socorrendo as crianças maltratadas”, podemos nos tornar adultos capazes de nos (auto)acolher e libertar a criança que em nós habita e que anseia ardentemente pela aprovação materna. Aprovação impossível, uma vez que existem mães com muita dificuldade de amar, encapsuladas em si mesmas, não conseguem perceber seus filhos como identidades separadas de suas necessidades pessoais. Trata-se infelizmente de um jogo de poder, e como já nos alertou Carl Gustav Jung: “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.”

         Iluminar o caminho de redenção destas famílias, é curar as feridas familiares das muitas gerações pregressas e presentear com saúde e “futuro” as gerações vindouras.

 

Referências

Pais tóxicos – como superar a interferência sufocante e recuperar a liberdadede viver Dra. Susan Forward e Craig Buck. Rocco. Rio de Janeiro.1990

3 comentários em “Mães Tóxicas na “Vida” dos filhos adultos

  1. Oque fazer no caso da mãe abusiva? Palavras machucam mais que agressão física, ainda mais quando noto que o abuso acontece apenas com um filho, enquanto os outros são consolados e fazem o que querem. Quero saber se posso tomar alguma medida legal sobre isso.

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    1. Olá Ludmila!
      Obrigada por enviar suas dúvidas.
      Infelizmente, ainda há pouco material teórico para provar (e cobrar judicialmente) as sutilezas dos abusos das mães tóxicas, no que se refere aos danos emocionais.
      Se, por acaso, no abuso também envolver prejuízos financeiros ou materiais, passíveis de comprovação, talvez seja possível uma intervenção jurídica.
      Libertar-se emocionalmente dos abusos sofridos, no entanto, sempre oferecerá a possibilidade de sair da teia e torná-la independente para construir sua própria história.
      Um grande abraço! Polyana Luiza

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  2. O pior de tudo não é o vazio, nem a culpa, nem um pouco de dúvida se estou ou não me comportando como deveria. O pior de tudo é a rejeição estar ali, escancarada na sua cara e ao mesmo tempo ter aquele fundo de esperança de que ela vai mudar de ideia e vai ver que foi longe demais. Ela vai por conta própria falar com você, pedir desculpas por tudo que disse, afinal de contas é sua mãe e a relação entre mãe filha está acima de tudo.

    Ledo engano. Depois de ler alguns relatos e estudos sobre a síndrome do genitor tóxico começo a me lembrar de algumas passagens, de tantas situações, de tantos discursos, de tantos sermões e assim, de repente, tudo começa a ficar claro e meu coração começa a doer menos.

    Tenho 33 anos e não me recordo da última vez em que eu, ao estar junto com a minha mãe, fui eu mesma, fui feliz, fui livre e me diverti sem pensar que talvez ela não fosse gostar de algo e portanto não deveria fazê-lo. Sempre, em qualquer reunião (de familiares ou não) estávamos todos preocupados em fazê-la se sentir bem e ser feliz. Agora pensando bem vejo que ela colocou esse comportamento em todos nós.

    Não me lembro do último presente que ela me deu porque quis, sem eu ter pedido ou a obrigado a comprar. Isso sem falar nos vários presentes que eu mesma comprei e me convenci que foi ela quem deu.

    Já fomos uma família, hoje somos apenas 4 estranhos que dividem o mesmo teto – seja por costume ou conveniência. No meu caso acho que mais conveniência e medo do desconhecido pois afinal de contas sou uma merda, que não consegue nada sem o apoio da melhor pessoa do mundo, minha mçae. Sou muito bem sucedida na minha vida profissional, mas o mérito não é meu. O mérito é dela que me criou para isso. Parabéns para ela não é mesmo?

    Cada vez que tento fazê-la ver o mal que me fez e me faz ouço elogios como: sua insignificante, sua menina ridícula, sua puta, sua ingrata. Se você acha que fui tão má mãe como foi que chegou onde está? Cheguei, minha cara, por mim mesma, pois se dependesse dos seus conselhos sequer à faculdade eu teria ido.

    Para contar minha história é preciso voltar longe, bem longe no tempo e explicar que a doença da minha mãe começou cedo, quando meu pai sofreu um grave acidente e ela foi apresentada por uma prima a uma seita religiosa que deu início a esse círculo vicioso de ódio e segregação. Sim, por mais vergonha que tenha disso tudo minha mãe entrou para o culto das Testemunhas de Jeová. A prima que a apresentou se livrou da lavagem cerebral que é feita nos membros – a minha mãe não. Ela chegou até a se afastar por um tempo mas infelizmente agora está de volta, mais cega do que nunca.

    Para ela o mundo é dividido entre bons e maus, puros e iníquos, ungidos e demônios. Eu, infelizmente devo fazer parte do segundo grupo na visão dela. Eu me fui obrigada a frequentar a seita até ter cerca de 15 anos, porém o estrago já havia sido feito. Não podia sair com nenhuma amiga pois eram todas iníquas, impuras. Não podia criar vínculos com ninguém que não fosse da seita. Isso no começo era normal para mim mas como podem imaginar afetou demais meu modo de me relacionar com o mundo – não tenho amigas da época do colégio e sim, a culpa disso é dela, da minha mãe.

    Sempre fui muito próxima das minhas primas e tias mas a minha mãe me envenenou contra elas, sempre colocando um contra o outro. Elas são putas, não ande com elas. Com o tempo, a distância foi aumentando e hoje as considero parentes distantes. Nem amo nem odeio.

    Minha avó materna morreu quando minha mãe era muito jovem e talvez por isso ela tenha desenvolvido essa doença. Vive dizendo que se a mãe dela estivesse aqui nos mataria, nos daria socos, nos humilharia tudo em detrimento da senhora da perfeição, da injustiçada, no caso minha mãe. Pois é, talvez se minha vó estivesse aqui ela não fosse doente como é ou não tivesse se juntado a esta seita diabólica.

    Minha avó paterna é um demônio para minha mãe – ela sempre a classificou como macumbeira e nos proibia de sair com ela, comer comidas feitas por ela, guardar presentes dados por ela. Não consigo nem computar o número de presentes que ela rasgou e jogou no lixo pois era instrumentos do demônio.

    Eu sempre fui próxima a meu pai e mais uma vez vem a interferência do que sou obrigada a chamar de mãe. Mais de uma vez ouvi da boca dela que eu era próxima ao meu pai pois tinha “tesão” nele, que era uma puta pecadora. Essas são palavras que ela repetiu para mim mais de uma vez, em alto e bom som. Ela teve um péssimo pai e creio que não admita que eu ame o meu (no caso muito mais do que a amo). A influência dela é tão forte que muitas vezes deixei de fazer coisas com meu pai com medo do que ela fosse achar, com medo de que ela fosse ter ciúme. Sim, isso que você está lendo é verdadeiro e possível. Infelizmente.

    Ela se sente a eterna injustiçada e nos ameaça diariamente – diz que somos porcos, sujos, pecadores que vamos nos arrepender de tratar uma criatura tão doce de forma tão injusta.

    O que aqui escrevo não corresponde a 1/1000 do que passei e passo diariamente. Se fosse descrever o dia a dia, as ameaças, os xingamentos, meus casos, ficaríamos aqui por horas e horas.

    Pensando bem, talvez por isso que jamais pensei em me casar ou em ter filhos. A vida é engraçada não é mesmo?

    Quem sabe em breve consiga dizer ao mundo que sou órfã de mãe vida, quem sabe isso me liberte para um futuro melhor.

    Na realidade escrever esse texto me fez bem, me fez colocou a vida em perspectiva para quem sabe encarar melhor toda a maldade a que sou exposta. Quem sabe em breve crio a coragem de me livrar deste círculo vicioso.

    Não ubliquem meu nome ou email, este é um relato sigiloso e confidencial

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