Refletir a Criança

                                                                REFLETIR A CRIANÇA

 

 

                   A presente proposta reflexiva é composta por fragmentos de ideias de diferentes autores comprometidos com a INFÂNCIA e, acima de tudo, comprometidos com desabrochar do potencial humano.

São colocações breves que, no entanto, nos remetem à questionamentos profundos acerca de nossa postura de adultos frente à criança que fomos, que somos e às crianças que, de alguma forma, entregam suas porções mais vulneráveis em nossas mãos humanas, de pais, de educadores, e/ou profissionais.

Esta proposta consiste mais, na verdade, em um convite: um convite para que pensemos a Infância, desprovidos de nossos “saberes”, racionalizações e medos de adultos. Um convite para sentirmos a Infância com o mesmo respeito com o qual reverenciamos, em cada nova estação da Vida, o contínuo processo do florescer e transmutar da Natureza.

Um convite também, para (re)encontrarmos nossa própria criança interior e ampará-las, pois como já nos disse Baudelaire: “Cada adulto traz dentro de si, um homem, uma mulher e uma criança – e a criança está sempre sofrendo!” Pensemos profundamente sobre isto!

 

**Este conjunto de frases reflexivas compôs um ciclo de palestras “Refletir a Criança”,  realizado, na rede municipal de ensino de São José dos Pinhais/Pr, nos anos de 1995 e 1996.

 

O ADULTO DIANTE DA CRIANÇA

 

“Toda vez que a criança abre seu coração para mim e compartilha essa assombrosa sabedoria geralmente mantida oculta, eu sinto uma profunda reverência”

Violet Oaklander

Minha lida cotidiana, na prática psicoterapêutica, consiste em uma sucessão muito gratificante de “reverências”, que trazem consigo uma grande responsabilidade. Lidar com crianças é uma tarefa repleta de surpresas, pois elas guardam ainda, um contato profundo com a Alma…e nós adultos já estamos por vezes muito distantes de nossa essência.

“A criança conhece todas as expressões da Vida. Emoções são boas e mansas onde a bondade e a mansidão são cabíveis. Elas são pesadas e batem forte onde a Vida é traída ou ofendida. A Vida é capaz de ódio agudo e amor sublime.”

Wilhelm Reich

A autenticidade das vivências infantis são muito pungentes, combinando uma necessidade de corresponder aos anseios dos adultos que lhe são guardiões e ao mesmo tempo, tentar preservar sua integridade. Ouço as crianças falarem da fragilidade de seus pais ou cuidadores, com tanta lucidez, que fico perplexa frente a nossa ingenuidade de adultos frente a sabedoria infantil. Como é difícil sermos “modelos” diante de tanta verdade.

“As crianças precisam mais de modelos do que de críticos.”

Joseph Joubert

                   Infelizmente, para serem aceitas e amadas, muitas crianças aceitam carregar consigo o lado sombrio dos seus pais, e o fazem até mesmo em detrimento de seu próprio bem-estar. Ou seja, caso a mãe necessite de uma criança “doente” ou “rebelde”, para justificar o abandono de seu emprego ou sua falta de sentido existencial…a criança carregará esta sombra de ser um “peso” na vida deste adulto. Pois, conforme enfatiza Bruno Bettelheim: “O adulto tende a projetar seus próprios conflitos não resolvidos nas crianças.” 

                            Mas, apesar dos adultos, muitas vezes machucados e “difíceis”, há uma tal capacidade de Vida nas crianças – por Pavlov chamado de “Alegria Muscular” e por Harley chamado poeticamente de uma “Silenciosa Música do Corpo” – que as tornam capazes de transcender às amarras emocionais que lhe são impostas e viver.

Uma criança de quatro anos e meio, ao ser elogiada pela sua criatividade, esclareceu com muito orgulho: “Eu tenho muitas ideias na minha cabeça”.                                                 

“Quando exercitam o corpo, as crianças sentem tal exuberância que frequentemente não conseguem ficar quietas, e expressam em altos brados a alegria pelo que seu corpo pode fazer, sem saber que este é o motivo…Esse prazer proveniente da capacidade de funcionar é um dos mais puros e mais importantes.”

Bruno Bettelheim

 

SOBRE AUTO-IMAGEM

A reflexão abaixo de Haim Ginot deflagra um sentimento de responsabilidade e comprometimento com o futuro das crianças, nossos adultos de amanhã…e também, deflagra uma busca em nossas crianças de ontem, que também trazem muitas palavras tatuadas na Alma:

“Seria bom se pudéssemos pensar na auto-imagem da criança como cimento fresco. Imagine que cada uma das nossas respostas à criança deixe uma marca e molde seu caráter e sua personalidade. Isto coloca pais e mestres sob o liame de uma obrigação permanente. Seria melhor que pudéssemos ter a certeza de que nenhuma das marcas por nós deixadas seja do tipo de que venhamos a nos arrepender quando o cimento endurecer.”

“Que nenhum adulto subestime o valor de suas palavras.”

Haim Ginott

 

Sobre falar de Sentimentos com as crianças…e, adultos!

 

Uma questão recorrente dos pais é saber como   proteger, falar e tratar de eventos tristes que não conseguem evitar na vida de seus filhos. A reflexão das autoras, fazendo um paralelo entre os machucados do corpo e os “machucados da Alma”, propiciam o entendimento de que, às vezes, aos pais cabe apenas, encaminhar os filhos para os atendimentos clínicos necessários, providenciando os remédios possíveis e ampará-los, segurando-lhes as mãos e ajudando os filhos a aceitarem o tempo necessário para que as dores passem e que as feridas cicatrizem:

“Quando…uma criança se corta, nada no mundo pode fazer com que o corte cicatrize imediatamente. A gente aplica um antisséptico e um “band-aid” e sabe que o tempo fará o resto. Para machucados do espírito é a mesma coisa. Fazemos o curativo emocional, mas devemos entender que o próprio processo de cicatrização é lento.”

O ciclo de palestras destinado aos professores da rede de ensino, tinha como intuito, sensibilizar os adultos para a necessidade de nos transformarmos em “Adultos Significativos” na vida de uma e de cada criança. Adultos companheiros que ajudem as crianças a “aguentarem” e superarem, seja qual for o sofrimento que a vida lhes desafie.

“O lugar do genuíno sofrimento na vida de uma criança…o poder, o extraordinário poder de um pai ou de uma mãe [ou de um adulto disponível ou “adulto significativo” na vida de uma criança] para dar conforto, simplesmente compreendendo as profundezas das emoções…um adulto – não destruído pela dor da criança, não negando-a – mas forte, ouvindo a angústia, conhecendo a dor e dando à criança, pelo simples ato de ouvir, a mais profunda de todas as mensagens: ‘A gente pode aguentar’ Desde que exista uma pessoa no mundo que possa realmente ouvir-nos, realmente sentir conosco, ‘a gente pode aguentar’.

Adele Faber & Elaine Mazlish

Como dizem as autoras, é preciso aprender a ouvir as crianças, a aceitar e estimular que expressem seus sentimentos, mesmo aqueles que não gostaríamos que existissem nos pequenos e que, talvez, não gostaríamos que existissem em nós mesmos. Sentimentos não são escolhas…não são excludentes…não devem ser julgados…pois “Todos os sentimentos são permitidos, as ações são limitadas.” E…“os sentimentos podem mudar, às vezes bem rapidamente, mas enquanto experimentados, não há coisa mais real.”

Sentimentos são únicos e verdadeiros, são os norteadores da autenticidade de cada pessoa, por isso, é imprescindível que sejam respeitados, acolhidos e aceitos, ajudando as crianças à construírem sua auto-estima:

“Sentimentos aceitos e respeitados são a base que leva a criança à confiar em si mesma.”

Adele Faber & Elaine Mazlish

 

Dicas para lidar com sentimentos

As autoras ainda, oferecem algumas dicas para aprendermos a falar de sentimentos com as crianças:

“1ª – Dois ou mais sentimentos contraditórios podem coexistir lado a lado;

2ª – Os sentimentos de cada criança são únicos;

3ª – Quando os sentimentos são identificados e aceitos, as crianças têm mais contato com o que sentem;

4ª – Quando os pais respeitam os sentimentos de seus filhos, estes, por seu lado, aprendem a respeitar e confiar em seus próprios sentimentos.”

                  Às vezes, as crianças tem dificuldade em identificar e nomear os sentimentos. Ensiná-las à perceber suas emoções, não temê-las e expressá-las é um dos caminhos para a saúde emocional.  No que se refere à falar de emoções, este trabalho pode ser extensivo para toda família, pois poucos adultos aprenderam a compartilhar sentimentos, à trocar afetos e à se entregarem emocionalmente, sem se sentirem vulneráveis ou inadequados.

Para que uma pessoa se torne apta à acolher o sentimento de uma criança, é preciso que aprenda a respeitar seus próprios sentimentos. No entanto, principalmente com as crianças, a expressão verbal não é a única forma de exteriorização. Muitas formas de arte são facilitadoras de processos expressivos, tais como, produções gráficas, pintura, modelagem, música, dança e, o brincar.

No contexto psicoterapêutico, estes outros meios de expressão são amplamente utilizados. Muitos pais ficam bastante preocupados com o uso do lúdico na psicoterapia, pois “a criança só vai ao psicólogo para brincar?” Vejamos o quão profundo, complexo e libertador pode ser ato de brincar:

        

Sobre o“BRINCAR” na Vida…

O “BRINCAR” no processo psicoterapêutico

 

“Brincar é auto-curativo”, esta frase de D. W. Winnicott, engloba as muitas dimensões do brincar, quando o traz como um processo de “cura”. Ressalta o brincar espontâneo da criança como uma forma de expressão, descarga e elaboração de possíveis dificuldades cotidianas do universo infantil. De certa forma, esta concepção é também compartilhada por Santo Agostinho, em Confissões:

“O lúdico é eminentemente educativo no sentido em que constitui a força impulsora de nossa curiosidade a respeito do mundo e da vida, o princípio de toda descoberta e de toda criação.”

Outros educadores enfatizam a importância do brincar na construção do mundo interno e do mundo exterior, levando-nos à pensar e perceber que a atividade lúdica não deveria ser discriminada e sufocada pelo excesso de atividades acadêmicas ou “úteis”, como nós adultos costumamos perceber o brincar:

“As brincadeiras das crianças deveriam ser consideradas suas atividades mais sérias.” (Montaigne)

“Brincar é uma Lei da Infância.” (Pestalozzi)

                   O “brincar” não tem repercussão positiva apenas para a criança que brinca, mas pode gerar a saúde emocional de um futuro.  Esta verdade já foi vislumbrada por Heráclito há muitos séculos:

 

“O nascimento e o desenvolvimento do universo são o jogo de uma criança que move suas peças num tabuleiro. O destino está nas mãos de uma criança que brinca.”

 

“Fragmento 52” – Heráclito

 

Além do brincar espontâneo, retomemos novamente o uso do lúdico no contexto psicoterapêutico infantil, agora segundo a visão de renomados teóricos da Psicanálise:

“Freud ensinava que uma criança brinca não somente para repetir situações satisfatórias, mas, também para elaborar as que foram traumáticas e dolorosas.”

Arminda Aberastury

Há cerca de vinte anos, uma criança me falou de sua dor através de um “Jogo de Varetas” …a criança de dez anos acabara de ver seu pai assassinar a mãe e tentar suicídio. Na primeira sessão, não tocamos no assunto das perdas e ela apenas me pediu para jogar varetas. Ao lançar as varetas, um jogo muito complicado se formou, muitas varetas presas, enroscadas e de difícil acesso. Perguntei à ela como faríamos para resolver aquele jogo…Ela me olhou nos olhos e propôs: “Vamos mexer com cuidado e bem devagarinho!” E foi desta forma que fomos mexendo em cada pedacinho daquela dor imensa, que fomos desvencilhando o emaranhado das emoções de luto, perda, saudades e medo.

“Todas as vezes que a realidade se torna aos olhos da criança difícil demais de ser reproduzida, ela a recria, combinando-a de modo a compensar seus aspectos menos facilmente assimiláveis. A criança se utiliza da brincadeira para resolver situações que lhe causam medo; insegurança ou inibição, revivendo-as de uma maneira imaginada a seu modo, afim de poder assimilá-las. Quanto mais difícil de ser assimilada uma situação, mais a criança a modificará a seu jeito. Até que frente a situações penosas ou desagradáveis, ela a assimilará progressivamente, revivendo-as em contextos menos difíceis. A brincadeira possibilita à criança justamente o prazer de se sentir atuante frente a situação, e não dominada por ela.”

Vera Barros de Oliveira

O brincar pode estar à serviço de questões menos dramáticas, mas igualmente sofridas, dentro do universo e da peculiaridade de cada criança. No consultório as crianças brincam com bonecas tentando aceitar irmãozinhos…interagem com bruxas e as dominam…montam “lego”, construindo e reconstruindo mundos (inclusive interiores)…aprendem à persistir, à resistir e a transformar… através de cada brinquedo ou brincadeira que elegem como expressão de suas angústias e conquistas.

“A canalização de afetos e conflitos para objetos que a criança domina e que são substituíveis cumpre a necessidade de descarga e da elaboração, sem pôr em perigo a relação com seus objetos originais.”

Arminda Aberastury

 

Sobre medos…

Os medos, geralmente são negados e esquecidos, mas quase sempre se tornam aprisionantes para todos nós, não importa a idade, compositores de muitas tramas da vida. Na infância os medos se transformam em monstros e dragões, mas se perpetuam na vida adulta, em muitas ameaças. Na década de sessenta, J. Wolpe e P.J. Lang, classificaram os quinze tipos de medo mais comuns nos seres humanos: medos de falar em público, de cometer erros, de falhar, de desaprovação, de rejeição, de pessoas iradas, de ficar sozinho, de escuro, de dentistas e injeções, de hospitais, de ferimentos abertos e sangue, de fazer exames, da polícia, de cães, de aranhas…

Medos que retratam o ser humano dos anos sessenta e de todas as décadas. Revelam também os medos desta geração tecnológica, que alcançou a excelência do mundo virtual, mas que traz na Alma, primitivos e arraigados medos, compartilhando alguns temores com seus irmãos das Cavernas:

“A criança e a Humanidade possuem seus medos básicos, frutos do próprio processo de interação com a natureza e com os outros seres humanos. Tais medos aparecem e desaparecem no decorrer da vida. São considerados básicos porque as pessoas os apresentam independente da cultura, sociedade ou momento histórico, ainda que tais fatores possam intensificá-los ou amenizar suas manifestações:

Separação; abandono;. escuro; barulho intenso; cair; estranhos.”

Mas os medos não são apenas entraves ou prisões… podem ser travessias, desafios que acompanham o crescimento e o estimulam, “janelas” como sugeriu J. Berry Brazelton, e que descortinam novos horizontes:

“Os medos podem ser considerados janelas que se abrem nos períodos inevitáveis de ajustamento pelos quais todas as crianças precisam passar.

 

Sobre agressividade…

 

                   Outro sentimento negligenciado é a raiva, uma das manifestações do que chamamos de agressividade. O impulso agressivo construtivamente canalizado pode também estar à serviço do crescimento, transformando-se em mola propulsora para a busca e conquista de um lugar no mundo, conforme esclarece Alexandre Nucci, numa poética analogia entre o crescimento das árvores e o crescimento humano:

“É preciso encarar a agressividade não como um defeito ou anormalidade, mas como uma necessidade básica que todos nós temos para viver em sociedade…É o que se chama ‘instinto de sobrevivência’.”

“Desta forma, as árvores que nascem entre outras árvores tendem a crescer na mesma proporção que suas vizinhas para não serem sufocadas por elas. Precisam de sol para sua sobrevivência e então se desenvolvem até chegar na altura das outras e conseguir usufruir dos mesmos benefícios.”

A agressividade no entanto, pode ser a geradora de dificuldades emocionais, quando sua expressão e canalização são obstruídas. Assim como as demais emoções, a agressividade é normalmente silenciada e ocultada, por não ser adequada, por não fazer parte do universo de pessoas bem educadas. Caberia esclarecer no entanto, que a identificação e expressão da agressividade é diferente de ser hostil, grosseiro ou cruel com as demais pessoas.

Quando sentimos raiva, nosso corpo se prepara para atacar ou fugir, uma energia é mobilizada para eliciar estes comportamentos, e, caso não seja possível externar adequadamente, a energia agressiva é sufocada novamente, permanecendo na Alma, intoxicando-a. Recomenda-se portanto, que atividades que propiciem a descarga desta energia sejam utilizadas.

No consultório, os pais e as crianças são orientadas à permitirem a expressão da raiva, fazendo uso de espaços e objetos apropriados para tanto. Um “Cantinho da Raiva” é sugerido, no qual são colocados sacos de areia, próprios para serem “socados” e brinquedos como jogos de dardos, boliches e/ou João-bobos, que exigem movimentos corporais  expressivos que liberam o fluxo de energia agressiva. O uso adequado da respiração, igualmente auxilia a liberação da energia agressiva.

“Pelo fato do fluxo de energia agressiva dentro da maioria das pessoas em nossa sociedade haver sido seriamente bloqueado, um primeiro passo importante neste processo de crescimento será a liberação dessas energias, para longe da passividade, estagnação e resignação, no sentido de uma padrão interacional afirmativo e fluído.”

George Bach & Herb Goldbery

 

 

Quando a agressividade é expressa, no entanto, em sua forma destrutiva, ela pode ferir as demais pessoas e é então que surgem brigas, surras, ofensas, “bullyng” e tantas outras formas de agressão.  E o que fazer quando nossos filhos são xingados ou humilhados na escola? A conduta correta é revidar?

Em se tratando de agressão física é preciso conversar com a escola e solicitar a intervenção de um adulto. E frente a uma agressão verbal, é importante ensinar a criança a questionar e refletir sobre si mesma e sobre seus próprios valores. Outra valiosa dica de Adele Faber e Elaine Mazlish, para lidar com emoções:

“Quando alguém xinga a gente de qualquer coisa, o importante não é o que dizem para gente, mas o que diz para si mesmo. Pergunta-se então, à criança o que ela disse a si mesma.”

“Ensinar à criança que existe a raiva sem insulto.”

 

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