Processo de luto: “A ausência da presença e a presença da ausência”

“A ausência da presença e a presença da ausência”…Esta  frase popular resume com muita sabedoria a dor contínua e persistente de uma perda, e, ressalta o quanto a ausência pode se fazer presente na vida daqueles que são privados da convivência com quem amam. Também nos faz lembrar do amor, e, que somente há perda quando houve vínculo, fazendo do amor, o sentimento que está sempre entremeando a morte.

Primeiramente é muito importante entender o significado de luto, conforme a etimologia da palavra, usando esta expressão como uma bússola para nortear nosso caminho dentro deste universo de sentimentos e reações tão rico, como rica é a diversidade e a unicidade do ser humano: “[Do lat. Luctus]1. sentimento de pesar ou dor pela morte de alguém. . Tristeza profunda; consternação, dó.” (p. 857) ou “lugere”, sofrer, lamentar”.

Os dicionários referem-se igualmente aos sinais exteriores deste sentimento, em especial o traje, preto quase sempre, que se usa quando se tem luto, conforme uma citação de Machado de Assis, em Relíquias de Casa Velha: ‘Minha mãe chorava, cosendo luto, entre duas visitas de pêsames.’(1)

Seja por uma vestimenta negra, uma cruz na lapela ou outra forma de exteriorização, luto fala de uma dor profunda que precisa ser elaborada, vivenciada e superada. As religiões possuem diferentes maneiras de explicar e lidar com a morte e oferecem diferentes suportes para que as pessoas enfrentem esta dor. Cada cultura também possui suas próprias interpretações da morte e propõem maneiras de ritualizá-las e superá-las.

Respeitando e considerando estas infinitas formas de amparo e suporte, a psicologia tenta estabelecer alguns parâmetros para compreender e intervir nas experiências de perdas, ao analisar os recursos emocionais que as pessoas costumam usar para aliviar e superar este desafio aparentemente intransponível. Elizabeth Kubler Ross² denominou o conjunto destas estratégias psicológicas, de “Processo de luto”, estendendo o termo “luto” para outras formas de perdas que requeiram uma reorganização da rotina, com o aprendizado de (com)viver com a ausência de alguém ou algo(saúde/relacionamentos) que até então era significativo para sua existência. Outros autores, no entanto, atribuem a palavra “luto” exclusivamente à situações nas quais tenha ocorrido a morte de uma pessoa.

Além de Elizabeth Kubler Ross, John Bowlby (3), entre outros renomados autores, realizaram diversas pesquisas sobre as “perdas” e sobre o Processo de Luto ou de Tristeza, possibilitando que estas dores, quando percebidas e compreendidas, possam tornar-se instrumentos de crescimento e construção emocionais das pessoas envolvidas. Este processo é definido a partir de fases ou estágios que podem ser concomitantes, sequenciais ou aleatoriamente vivenciados, e cuja duração é medida mais por vivências internas do que pela cronologia dos relógios e calendários.

Processo de Luto na morte de uma pessoa significativa

Primeiro estágio: negação e isolamento

A negação, também considerada um mecanismo de defesa, preserva a pessoa de entrar em contato emocionalmente com a perda até que sejam reunidos recursos psicológicos para lidar com a dor. As pessoas enlutadas podem negar a morte, evitando comunicar o falecimento aos demais, criando fantasias de retorno da pessoa ausente, tentando manter rigidamente rotinas determinadas pela pessoa falecida, ou criando outras estratégias em uma tentativa de manter tudo inalterado. Para evitar confrontar a realidade, a pessoa enlutada pode isolar-se dos demais, percebidos inconscientemente como uma ameaça a sua “verdade”.

Para ajudar as pessoas nesta fase, é necessário sensibilidade e respeito para não invadir ou romper uma defesa em alguém demasiado fragilizado e ainda não suficientemente amadurecido para receber ou digerir uma fatalidade, permitindo que o “tempo” de cada um seja observado.

Segundo estágio: raiva

A raiva, segundo Bowlby (4, p.94): “é vista como um componente inteligível do esforço, premente mas infrutífero, realizado pela pessoa enlutada para restabelecer o elo que foi rompido. Enquanto a raiva continua, ao que parece, a perda não é aceita como permanente e a esperança ainda perdura.”

Com a raiva podem surgir a necessidade de encontrar um culpado, alguém a quem possa endereçar a sua revolta: então, equipes médicas são acusadas de negligência ou imperícia, parentes são acusados de displicência ou irresponsabilidade, e, toda e qualquer pessoa torna-se passível de justificar o impensável.

O perigo é que um ciclo de hostilidade pode ser estabelecido, ou seja, movidos por esta necessidade de culpar algo ou alguém, qualquer pessoa bem intencionada e disposta a ajudar, pode ser transformada em alvo de agressões, que, ofendida e ressentida, pode devolver a agressão ou afastar-se, retroalimentando o destrutivo ciclo de incompreensão e dor.

Novamente as pessoas envolvidas precisam desenvolver suas habilidades de compreensão e tolerância, não “pessoalizando” a hostilidade, ou seja, não tomando para si as agressões, ajudando a pessoa enlutada a perceber que sua raiva não é para com elas, mas com a morte, ajudando-a a canalizar adequadamente a sua raiva e dor. Não se trata de tornar-se passivo e permissivo, mas de aceitar a raiva, racional ou não, como algo inerente ao processo.

Ainda na tentativa de compensar o esmagador sentimento de desamparo e fragilidade, a pessoa enlutada pode tornar-se arrogante ou excessivamente autossuficiente, resistindo ou desconsiderando as ofertas de auxílio e conforto, buscando criar e manter uma fantasia de invulnerabilidade inexistente.

O ressentimento, outro sentimento bastante perturbador, apresenta-se como mágoa pelas pessoas que não estão passando pela mesma dor. A errônea interpretação de que há um mundo completamente feliz, imutável e indiferente àqueles que sofrem.

Terceiro estágio: negociação

Esta fase, menos conhecida, caracteriza-se pela tentativa de buscar alguma “compensação” imaginária, após a também tentativa de entendimento do inevitável. As pessoas podem passar a querer alguma espécie de prêmio ao superar a raiva e submeter-se ao destino. Admitem a perda e se propõem a negociar, construtiva ou destrutivamente, com a dor ou com a vida.

E as negociações podem tornar-se bastante desesperadas, levando-os as pessoas enlutadas a se entregarem a atitudes autodestrutivas, justificando seus comportamentos como uma retaliação por ter sido abandonado pela pessoa morta ou por Deus.

Muitas vezes esta negociação traz escondida no seu âmago, um sentimento de culpa, algo como estar sendo punido por possíveis faltas que tenha cometido e que após a punição aceita, o fará merecedor de um prêmio, como a superação automática da dor.

Quarto estágio: depressão

Após as tentativas de negação, a revolta, a tentativa de encontrar alguma compensação para sua perda, pode chegar a fase do encontro inevitável com a dor, o profundo vazio deixado pela pessoa que partiu e por um vazio de si mesmo.

A pessoa enlutada percebe que precisa superar velhos padrões de pensamento, sentimento e ação, redefinir seu papel social e suas necessidades, e/ou ainda, desenvolver novas habilidades, mas encontra-se impotente para realizar qualquer mudança

Neste momento a tristeza se torna uma aliada para que seja encontrado um verdadeiro significado para o seu sofrimento, pois somente quando o ser humano encontra razões para sua dor, constrói recursos para superá-la, tornando-se capaz de atingir o estágio da aceitação.

A vivência profunda de sua dor, torna a pessoa mais disponível para aceitar e deixar ajudar-se.

Quinto estágio: aceitação

No estágio da aceitação, resgata seu direito à vida, compreendendo que a vida efetivamente pode e deve continuar. Após mergulhar e acolher todos os seus sentimentos antagônicos, a pessoa pode voltar a sonhar, a fazer planos e a engajar-se em novos propósitos existenciais.

Liberto da dor e da culpa, pode novamente entregar-se e acreditar no amor.

A esperança

Elizabeth Kubler Ross(², p.143), enaltece a esperança como o sentimento primordial em todo o processo:

“Até aqui, discutimos os diferentes estágios por que as pessoas passam ao se defrontarem com notícias trágicas: mecanismos de defesa, em termos psiquiátricos, mecanismos de luta, para enfrentar situações extremamente difíceis. Tais estágios terão duração variável, um substituirá o outro ou se encontrarão, às vezes, lado a lado. A única coisa que geralmente persiste, em todos estes estágios, é a esperança.

Além da esperança, muitos outros sentimentos podem ser (re)despertados naqueles envolvidos em dores profundas, como gratidão, generosidade, amizade e união. Situações graves tendem a mobilizar a generosidade e a afetividade humanas.

A generosidade faz com que muitas pessoas que passaram pela dor da perda se disponham a auxiliar e amparar outras pessoas que estão lutando para superar seu pesar. Importante ressaltar que este acolhimento genuíno pode se manifestar quando as feridas emocionais estão cicatrizadas e não quando ainda estão machucando ou sangrando.

A empatia e a disponibilidade afetivas são outras caraterísticas que devem estar a serviço do amparo e do auxílio às pessoas envolvidas em perdas profundas, sempre acrescidas da sensível recomendação de Carl Gustav Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

  1. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986.
  2. Kubler Ross, Elizabeth – Sobre a morte e o morrer. 10ª edição. São Paulo. Martins Fontes. 2017

3.https://refletindoapsicologia.com/2017/02/08/codependencia-quando-o-cuidado-machuca/

  1. Bowlby, John – Perda: Tristeza e Depressão. 1ª edição. São Paulo. Martins Fontes. 1985

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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