Vergonha…Timidez e Fobia Social Origem/desenvolvimento/caminhos de superação

O “olhar do outro” pode ser acolhedor ou ameaçador, dependendo do que neles se possa encontrar refletido. Quando somente críticas são percebidas no “olhar”, fugas são geradas, mas se respeito e compreensão o iluminam, segurança e liberdade são transmitidos àqueles que o recebem.

Os primeiros “olhares” são lançados pelos pais ou pelos cuidadores iniciais, responsáveis por mostrar e instaurar os parâmetros do que é certo ou errado, do que é aceito e do que é inadmissível para a sociedade. A criança, aprendiz ainda das regras sociais e da cultura, na qual está se inserindo, precisa ser orientada para que consiga respeitar normas, e, ao mesmo tempo, possa construir uma identidade autêntica.

A maneira como as noções do que é bom e do que é mau são apresentadas para a criança, são importantes norteadores na formação da sua identidade e autoestima, e este processo de incorporação de regras, suscita emoções que podem fortalecer ou dificultar seu futuro desempenho social. E emoções como vergonha, ciúme, humilhação, orgulho e culpa, também chamadas de secundárias ou sociais, são desencadeadas na convivência com os outros. A presente discussão versará sobre estas emoções e mais especificamente sobre a vergonha, que no seu aspecto construtivo nos protege de exposições excessivas e que no seu aspecto negativo, pode tornar-se tóxica, limitando nossa expressão no mundo.

APRENDIZAGEM DAS REGRAS SOCIAIS

Reações básicas dos adultos frente à infância

Neste processo de “aprendizagem das regras sociais”, há três reações básicas que o adulto tende a tomar frente a espontaneidade, desconhecimento e/ou “desobediências” da infância, pois há resistências por parte das crianças de se enquadrarem no conjunto de “nãos” que as rodeiam:

– Os pais podem reprovar a ação, delimitando para a criança que apenas sua atitude está incorreta, preservando seu valor pessoal. Por exemplo, explicar que não deve riscar a parede, mas que pode fazer seus desenhos em uma folha de papel. Sua integridade como pessoa e sua necessidade de expressão são respeitadas e os limites são traçados.

– Os adultos podem censurar a criança, não estabelecendo distinção entre seu ato “incorreto” e sua pessoa, induzindo-a à formar uma imagem negativa de si mesma. Dizer para a criança que “é feia” por estar rabiscando a parede, passa a mensagem de que ela é um ser errado e sem valor. As crianças acham que os adultos sabem de tudo e que se eles a julgam inadequada, sentem-se humilhadas, e, acreditam nas suas palavras.

– Ou ainda, uma terceira possibilidade de reação pode ser a “gelada”, atitude na qual os adultos passam a ignorar a existência da criança, no intuito de que ela perceba que errou. Esta atitude de indiferença e hostilidade passiva, gera na criança uma crença de que não é digna de existir. No caso da parede rabiscada, os adultos podem repreender a criança e passar a não interagir com ela.

Em suma, pontuar o comportamento inadequado é necessário, mas sem menosprezar, humilhar ou ignorar a criança, pois na infância pode-se desenvolver a vergonha momentânea e reparável de um ato equivocado ou instalar a vergonha tóxica de sentir-se inadequada, rejeitada ou desprezível, como se tivesse nascido com um “defeito de fábrica”.

Outra sutileza neste processo de compreensão e aceitação de regras, está na peculiaridade de cada grupo familiar, social ou cultural, pois, muitas vezes, a criança pode estar transgredindo regras que sejam incorretas somente naquele meio específico e que o mesmo comportamento seja totalmente aceitável em outros meios sociais. Ou seja, talvez a excessiva espontaneidade de uma criança incomode uma família excessivamente reservada, demonstrando que neste momento está entrando em jogo as próprias características de personalidade da criança, que podem não ser compatíveis com as expectativas familiares.

DIFERENÇAS DE PERSONALIDADE

Personalidade Introvertida

No tocante às diferenças de personalidade, há duas formas elementares e distintas das pessoas lidarem com os mundos interno e externo. E estes tipos distintos foram sistematizados por C. Gustav Jung¹, a partir da observação da maneira como as pessoas orientam sua energia psíquica, canalizando-a para “fora’ ou para “dentro” de si mesmas:

– Denominou de tipo Extrovertido, as pessoas que canalizam sua energia para os objetos, fatos e pessoas, focando sua atenção na ação, comunicação e autoexpressão, apreciando as interações, sentindo-se confortável no meio social.

– Chamou de tipo Introvertido, quando a energia psíquica é dirigida para o mundo interno, composto pelos interesses, emoções e subjetividade do próprio indivíduo. Sente-se mais confortável no seu mundo interno, uma vez que o mundo externo não lhe suscita muita empolgação, limitando suas ações no mesmo. Há os introvertidos que quando respeitados, convivem em harmonia com o mundo social, e há aqueles que por serem discriminados ou incompreendidos, podem desencadear timidez ou qualquer outra dificuldade de interação.

Na era da mídia e da superexposição social, ser do tipo Introvertido não está sendo tarefa fácil, pois a pessoa introvertida pode parecer “quieta” e retraída, estando exposta a julgamentos depreciativos, sendo muitas vezes taxada de “arrogante”, solitária e/ou “antissocial”.  A menor habilidade e/ou pouca vontade de lidar com o mundo externo, pode provocar as temidas críticas que, muitas vezes, a pessoa que desenvolveu uma timidez tenta silenciar e ocultar de si mesma.

 TIMIDEZ…FOBIA SOCIAL…E/OU “FERIDAS DA VERGONHA”

Entenda-se por timidez, características de personalidade que evidenciam desconforto de algumas pessoas de interagir socialmente. Por fobia social, um quadro clínico diagnosticado pela psiquiatria, passível de intervenção medicamentosa. E vergonha, uma emoção social, desencadeada pela percepção que se tenha do “olhar do outro”.

Para que danos emocionais sejam evitados, é necessário que o aprendizado das habilidades sociais sejam realizados com respeito às diversidades para que “feridas da vergonha” não sejam desencadeadas. Tudo o que dói, causa sofrimento, limita nossas vidas  podendo tornar-se “feridas” na Alma, e, a busca constante de prevenir e curar feridas, está sempre norteando nossa lida psicológica.

CONSEQUÊNCIAS DAS “FERIDAS DA VERGONHA”

(Fuga – esquiva social – negação – congelamento emocional)

Para que sejam superadas, é preciso compreender quais as consequências que as “feridas da vergonha” podem gerar. Processos de fuga ou esquiva social em geral são utilizados, e dependendo do grau de isolamento e restrições que provoquem, podemos estar frente à uma timidez, na qual a vergonha pode ser superada ou diante de um comportamento fóbico, no qual um medo e ansiedade extremos são eliciados frente a qualquer confronto social.

A vergonha tóxica pode gerar um mecanismo defensivo de negação das dificuldades de interação, com a racionalização de uma autossuficiência compensatória, levando as pessoas a acreditarem que não necessitam dos outros. No decorrer da vida, as pessoas, sentindo-se socialmente isoladas, congelaram ou enterraram na profundidade da Alma seu anseio de convivência, e buscam convencer a si mesmas de que a solidão é uma escolha, esquecidas de que esta pretensa onipotência é apenas um consolo para sua vulnerabilidade, pois o instinto gregário é inerente ao ser humano.

Além do isolamento “opcional”, outros “disfarces” comportamentais podem ser desenvolvidos para ocultar a ferida da vergonha, variando da arrogância à solicitude extrema, ou seja, desde pessoas que se portam como se “não precisassem de ninguém” até pessoas que não se permitem dizer “não”, colocando-se sempre excessivamente disponíveis para o outro, em detrimento de suas próprias necessidades e desejos.

A vergonha, quando tóxica, gera vulnerabilidade social, que se apresenta como ansiedade, medo de vir à sentir-se constrangido ou ridículo, certa paralisia motora, gagueira, sensação de inadequação, baixa autoestima e muita solidão. Sentimentos que podem impedir alguém de cumprir sua jornada existencial, pois a vergonha chega a ser mais danosa que o próprio sentimento de culpa, uma vez que frente a algo que nos gere culpa, temos sempre a possibilidade da reparação do erro, já na vergonha, não há o que redimir, pois a pessoa não “fez algo”, ela “É” ou concebe a si mesma como fracassada ou inábil.

Sua vulnerabilidade social leva a supervalorizar as críticas e a ignorar elogios, sentindo-se sempre exposta, avaliada negativamente pelas demais pessoas, as quais considera e fantasia serem seguras, bem resolvidas e autossuficientes. Sentem-se isoladas e prisioneiras de sua suposta inadequação social, podendo recorrer inclusive ao uso de bebidas ou de drogas ilícitas como paliativos de suas dificuldades.

A ameaça e a insegurança estão sempre presentes, acarretando um desconforto permanente quando na iminência de uma interação social, podendo igualmente, gerar outros medos e fobias associadas, limitando progressivamente a vida das pessoas. O grau de comprometimento e o cerceamento da vida, podem definir o tipo de ajuda que se faz necessária.

SUPERAÇÃO DA “VERGONHA TÓXICA”

A pessoa precisa entrar em contato com sua dificuldade, sem julgamentos ou qualquer tipo de desprezo ou banalização do seu sofrimento, postura aliás que deve nortear todas as intervenções que se proponha no universo das emoções. Lembremo-nos que muitas necessidades emocionais foram negadas, reprimidas ou encontram-se congeladas, camufladas por disfarces que precisam ser abandonados e substituídos por expressões autênticas de si mesmo.

Detectar as causas da dificuldade social, verificando se estão ancoradas em algum evento ameaçador ou constrangedor do passado, e desenvolver a capacidade do indivíduo de superá-las e integrá-las psicologicamente. Verificando ainda, se há uma vergonha tóxica instaurada na infância e que precisa ser (re)significada e elaborada.

Desenvolver estratégias de gerenciamento da ansiedade, propiciando que a pessoa possa permanecer na situação que percebe como ameaçadora, desenvolvendo autonomia e recursos interiores para adaptar-se e sentir-se progressivamente confortável e segura.

Diminuir a preocupação com o “olhar do outro”, percebendo que os outros também possuem suas vulnerabilidades e necessidades de aprovação. Desvinculando este “olhar” das censuras que lhe credita, bem como, da suposta capacidade que possam possuir de penetrar e desvendar suas dificuldades, uma vez que as pessoas que se sentem   ameaçadas socialmente acreditam que os outros estão percebendo sua inadequação e desnudando suas fragilidades.

Adequar as expectativas de desempenho social, aceitando a premissa de que é impossível agradar a todas as pessoas ou de ser perfeito em todos os papéis que venha a desempenhar na vida, permitindo-se ser falível e humano.

REFERÊNCIAS:

– Silveira, Nise da – Jung: Vida e obra. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1981

– Bilenky, Marina Kon – Série o que fazer? Vergonha. São Paulo; Blucher. 2016

– Einse, Andrew R. & Engler, Linda B. – Timidez: como ajudar seu filho a superar problemas de convívio social. São Paulo. Editora Gente. 2008

– Markway, B. G. & Carmin, C. N. & Pollard, C. A. & Flynn, T. – Morrendo de vergonha: um guia para tímidos e ansiosos. São Paulo. Summus, 1999

 

 

 

 

 

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