Refletindo o Natal

Refletindo o Natal

“O Vendedor de Ilusões”

         [‘Olha, olha minha gente! Vamos aproveitar! Uma unidade por cliente! Quem vai levar um dezembro para casa?! felicidade tem preço, mas é barata!!!

         No mercado da ilusão, o vozeirão do vendedor bem-falante atraía diversos tipos de pessoas para o seu convidativo negócio. No começo, um pouco tímidos, os curiosos foram aproximando-se. Não tardou, porém, para que a inibição inicial fosse rompida e, em seu lugar, surgisse o tradicional empurra-empurra das liquidações, os calos pisados, as cotoveladas…tudo por conta da curiosidade.

         – Não tem um maio aí, não? É para minha mãe, entende?

         – Ora, minha senhora, pra que presente mais especial pr’uma mãe do que um dezembro?! É cheio de alegria, de reuniões de família, de perdões e desculpas…

         – É?! E tem Natal em maio, tem?! Tem esse ar de “tudo bem”?! Faz favor?!!! Leva um dezembro que ela vai adorar!

         Venda feita, o interesse voltou-se para mais um comprador:

         – Tá bem, embrulha um…

         Outros clientes foram, um a um, convencidos da necessidade de comprar aquele produto. E não havia recusa que não fosse prontamente debelada pelo convincente vendedor. Saiu dezembro para muitos, inclusive para um militar que insistia em levar setembro, para casa, ou melhor, para o quartel.

         E assim foi. Um saudosista português abdicou de abril e de seus cravos; um velho compositor de samba-enredo de um bloco carnavalesco esqueceu de seu fevereiro, um político trabalhista não quis levar a homenagem de seu ídolo de agosto.

         O bêbado e o menino-da-rua também levaram. A razão do sonho imensurável e da esperança sem limites fizeram-nos acreditar que o ano prenunciado por dezembro seria, de fato, melhor que àquele com mais rimas e mais fartura de pão e carinho.

         No final de tudo, vendedor e compradores estavam felizes. As pessoas levavam os seus dezembros com a ansiedade daqueles que, tão logo haviam comprado uma árvore de Natal, não viam a hora de enfeitá-la com bolas e luzes multicores. Os votos de felicidade soavam verdadeiros e aos ouvidos dos mais céticos e o badalar dos sinos não irritava tanto. Finalmente a ilusão vencera a realidade.’]

(Osni Carlos Fanini é participante da Oficina de Textos Melian)

         A “ilusão” vencera a “realidade” … Porque todo dezembro nos deparamos com esta dubiedade? Por que sempre a magia do Natal vem envolta em uma desconfiança e uma temeridade disfarçada e dissimulada pela correria do final do ano?

Todos querem poder entregar-se a possibilidade da alegria, mas temem serem surpreendidos por uma “realidade” desconcertante. Todo ano trabalho com os clientes suas expectativas sobre o Natal…suas frustrações, seus medos e suas suspeitas.

E percebo que cada um revela uma forma peculiar de receber o Natal: alguns criam expectativas imaginárias, como se Papai Noel fosse capaz de curar todos os desencontros e num passe de mágica pudesse presenteá-los com uma família idealizada e sonhada.

Outros, encolhidos em si mesmos, feito crianças esquecidas pelo Papai Noel à lamentarem sua má sorte de excluídos…enclausuram-se em sua solidão.

Outros ainda, já descrentes, rejeitam o Natal, como se rejeitassem suas próprias memórias, tentando impermeabilizar-se contra a doçura da data.

Mas, observa-se que todos guardam dentro de si uma criança ansiosa, aquela criança que esperou o ano inteiro pela magia do Natal. Aquela criança interna que sempre teve esperança e fé nesta “Noite Feliz”.

Durante muitos anos portanto, compartilhando com as pessoas estas tantas esperanças de Natal, passei a tentar desvendar este intrigante enigma e junto com os clientes fomos tentando separar o que realmente é “ilusão” e o que é a tal decantada “realidade”.

Segundo o Dicionário Aurélio: Ilusão vai de “falsa aparência” à “coisa efêmera, passageira”. Que o Natal chega envolto numa aparência mágica é inegável e que esta magia é fugaz também é fato. Mas que são estas mesmas fugacidade e beleza, que o torna capaz de despertar sentimentos como esperança, compreensão, perdão e generosidade.

Uma nostalgia de um encantamento que só dura um mês, esperado o ano todo e que passa voando. Seria bom se pudéssemos comprá-lo como sugere o texto e brincar com o mês de dezembro em todos aqueles meses em que a vida fica muito cotidiana e opaca. Enfeitar com laços e luzes nossa rotina e com encanto natalino nossos desafios.

Há também uma vaga nostalgia por aquele Natal prometido pela mídia, pelo comércio e pelas expectativas de felicidade plena idealizadas o ano todo.

Com muitos clientes, todo ano fazemos o projeto “Salve seu Natal” … ou seja, simulamos uma espécie de “Manual de preparação” para os encontros natalinos e familiares.

A primeira dica é lembrar que todos trazemos dentro de nós, uma “família que se fala” e uma “família que se sofre”, conforme afirmou Gaiarsa. E eu diria “uma família que se sonha e uma família que se tem” e se você for para o Natal com a família que “tem”, com aceitação e compreensão, tudo será muito mais fácil. Afinal nossas famílias não trazem somente dissabores, trazem no pacote também, suas “bizarrices” e encantos.

Mas, é preciso respeitar sempre o “tempo de validade” da convivência familiar. Pessoas que não estão mais habituadas a conviverem, tendem a se estranharem após a efusão afetiva do reencontro e podem reeditar as velhas provocações, as já conhecidas piadinhas, as críticas habituais, enfim, pode ocorrer a reedição de antigos desconfortos familiares.

Acreditando sempre, no entanto, que o Natal traz consigo uma real possibilidade de renovação, desde que consigamos transcender ilusões pueris de felicidade completa e aprendamos a receber as pequenas dádivas que o espírito de Natal pode nos trazer. Desde que estejamos disponíveis para envolver-nos numa lúcida entrega de nosso potencial de aceitação da limitação de amor daqueles que amamos.

E o que dizer do velho dilema: “Com qual família passaremos o Natal? Com a minha família ou com a sua? Natal é data para ser comemorada com a família, o Ano Novo está liberado!” Quem já não ouviu esta cobrança familiar? Frente a esta problemática anual, a solução seja talvez, não transformar a celebração numa disputa de poder pessoal ou poder familiar, permitindo que todos os envolvidos negociem os encontros com bom senso e generosidade.

Essas disputas de poder costumam gerar muitas culpas e ressentimentos. As pessoas tendem a sentir que estão traindo tradições ou negligenciando pessoas queridas, caso sejam coagidas a excluir e escolher entre a casa dos pais ou a casa dos pais do cônjuge.

Outra dica é a de sempre priorizar o “encontro afetivo e efetivo das pessoas”, colocando a troca de afetos acima da troca de presentes…a comunhão das pessoas acima da ceia e a gentileza acima dos adornos e luzes.

Nunca esquecer que famílias ideais não existem, apenas famílias humanas, compostas por pessoas falíveis e que, se por acaso na sua casa a noite ou o dia esteja chato ou se sua família não comemora o Natal, evite olhar para a casa ao lado, imaginando o quão felizes são aquelas pessoas privilegiadas. São famílias como a sua, ensaiando a felicidade como vocês.

Evitar o sentimento de desesperança, caso tenha sido obrigado a separar-se de alguém importante, temporária ou incertamente, apesar de sempre surpreendentemente. Afastamentos são inevitáveis e superáveis e os laços de amor são atemporais e eternos.

Com verdade interior…não há necessidade de comprar “maios de mães” ou “outubros de crianças” ou “dezembros de superações”. Com consciência e compreensão estaremos preparados para comprar qualquer mês da Vida, qualquer estação do ano…qualquer momento de encontro.

Este texto “Vendedor de dezembros” me foi dado há anos por um amigo-irmão que há anos partiu para as terras por ora inacessíveis da eternidade, mas que me vendeu um dezembro e tantos outros meses plenos, com muitas trocas e aprendizados.

Sejamos vendedores de esperança e compradores das ilusões mais verdadeiras com as quais a vida nos presenteia: a magia da realidade de acolhermos uns aos outros.