Conclusão

CONCLUSÃO

 A proposta deste estudo está centrada na questão da cura, e por acreditar que parte da cura emerge da compreensão, alguns capítulos foram destinados à explicação teórica da instalação de mecanismos psíquicos de emergência para lidar com o abuso sexual incestuoso e os maus-tratos. Foram destas discussões que surgiu a questão do segredo, fundamental para entender como a maldição de abusos sucessivos intergeracionais ocorre.

Recordando, ainda, que a descrição da jornada interior individual das crianças-feridas e das crianças-adulto-feridas, possui o intuito de atingir o desativar das dores coletivas, a confrontação com o segredo e o rememorar individual, podem servir de denúncia da sombra que está devidamente soterrada na memória familiar, tanto da geração da criança em questão, como das gerações pregressas. Mas não basta denunciar, é preciso acolher as dores e superá-las. Neste sentido, caberia refletir que apesar de todos os esforços psicoterápicos ou de evolução realizados por outros caminhos, as feridas nunca serão curadas por completo, deixando cicatrizes que, apesar de não mais sangrarem, não podem ser esquecidas. Devem ser lembradas inclusive, para que não se repitam, uma vez que não se pode ignorar o caráter aditivo dos abusos, tanto sexuais quanto físicos.

Caberia refletir, igualmente, que uma denúncia somente encontra eco, se as pessoas estiverem disponíveis para ouvi-la, logo a quebra da maldição depende do quão preparados estão os familiares para confrontarem com as histórias de abusos das crianças-feridas vitimizadas. Se pelos parentes houver um acolhimento interior da informação do abuso, então, pode-se pensar em transformações estruturais familiares, alertando, no entanto, que este processo de modificação necessitará de várias gerações subsequentes para que se efetive.

Caso não haja disponibilidade de escuta nesta família, infelizmente a tragédia permanecerá gerando vítimas. A maldição ganhará força a cada nova geração. Alerta-se que se a vítima for a criança-ferida da experiência concreta, esta permanência do segredo, continuará vitimizando-a, e, caso se trate da criança-adulto-ferida, duas possibilidades se descortinam, quais sejam, ou ela engaja-se na perpetuação da sombra familiar, tornando-se também “tecelã” de dores, abusos e vítimas; ou ela inicia uma jornada rumo à totalidade, impedindo que ao menos em sua Alma esta maldição se refaça.

Á ainda uma questão ferida a ser confrontada: trata-se da questão do exílio inevitável. Por mais que a criança-adulto-ferida realize esta jornada de busca da Alma, existe uma perda que jamais será suplantada, ou seja, a perda da família original. Por mais que as feridas se curem, o indivíduo ferido abusado jamais consegue integrar-se completamente à família que o feriu. Ele sempre será Azazel. Mesmo que sua denúncia da sombra salve a família. Ele sempre será um exilado porque ao falar de suas dores, desnudou as dores de seus parentes, fê-los sofrer e este processo deixou mágoas, uma vez que todos se sentem traídos. Para curar estas cicatrizes é preciso que novas gerações sem máculas de abusos surjam, e que elas escrevam um novo destino para esta família.

Faz-se absolutamente necessário ainda, recordar que em se tratando de maldição e segredos. Muitos aspectos ainda carecem de serem desvendados. Os mistérios que envolvem as vitimizações magoam a humanidade há milênios, tratando-se portanto de uma questão humana quase indevassável, logo é preciso muito aprofundar-se, muito comover-se e comprometer-se para que os curandeiros da Alma contemporâneos encontrem trilhas emocionais capazes de resgatar estes “espíritos” feridos.