Capítulo XVII

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CAPÍTULO XVII

O REENCONTRO DA CRIANÇA-INTERIOR

                     No caminhar rumo à cura, a criança-ferida vitimizada precisa percorrer as estações de chorar suas dores e cicatrizar suas feridas, para encontrar-se com a criança-interior primeira, aquela ´porção da Alma humana que abriga a vida, em todo seu potencial de luz e evolução. STONE & WINKELMAN in J. ABRAMS ²²³, chama este encontro de Portal de acesso a Alma:

                    [A descoberta da criança-interior é realmente a descoberta de um portal de acesso à Alma. Uma espiritualidade não alicerçada na compreensão, experiência e valorização da criança interior pode com grande facilidade distanciar as pessoas de sua simples dimensão de humanidade. Ela nunca cresce, apenas se torna mais sensível e confiante à medida que vamos aprendendo a oferecer-lhe tempo, cuidados, assistência paterna/materna e o afeto protetor de que tanto é merecedora.]

  1. HOUSTON in J. ABRAMS²²4, igualmente coloca o encontro com a criança-interior como uma abertura existencial, retratando-o, no entanto, como uma porta de acesso ao amor:

[A violação da fraqueza e da simplicidade naturais da criança pequena ainda não preparada para a autonomia pode tornar-se um infantilismo protetor que dura a vida inteira da pessoa. Essas feridas podem ser redimidas por meio da simplicidade natural do ato de amar, aliás, elas até podem constituir-se na porta de acesso através da qual o amor pode entrar.]

Esta possibilidade de instauração de um infantilismo protetor proposto pelo autor, pode ampliar a compreensão acerca das famílias feridas. Isto explica porque muitos pais agridem os filhos ao perceberem que estes exigem cuidados, enquanto crianças, que os pais infantilizados não encontram recursos interiores para atender.

Para atingir estados de consciência mais depurados, como encontrar-se consigo e com o amor, propõem os autores que se (re)encontre a criança interior perdida. Para empreender esta tarefa, C.L. WHITFIELD²²5, sugere um processo de cura, envolvendo quatro fases:

[1.-  Descobrir e praticar que somos nosso “self” real, ou Criança-Interior;

                    2.- Identificar as necessidades físicas, mentais-emocionais e espirituais que estão ativas em nós;

                    3.-  Identificar, reviver e sofrer a dor de nossas perdas não sentidas ou traumas ignorados na presença de pessoas confiáveis e acolhedoras;

                    4.- Identificar e elaborar nossas questões centrais.

                    Essas ações se inter-relacionam de modo intenso, embora não apareçam numa sequência específica.]

No trabalho psicoterapêutico, uma das formas de se lidar com os itens 1 e 2, talvez seja o trabalho corporal, por intermédio da respiração e do “grounding” que efetivamente coloca a pessoa em contato consigo mesma. Faz-se necessário recordar que há um exílio emocional e corporal na criança-ferida-vitimizada, o que a impede de detectar suas próprias carências e necessidades. Conforme oi descrito anteriormente, para estas pessoas, a existência de necessidades ou carências significa impotência ou fragilidade extremada, fatores incompatíveis com sua auto-imagem onipotente, de mártires sobreviventes.

O item 3 foi bastante explorado em capítulos precedentes, os quais enfatizam a necessidade de se trabalhar a dor original, principalmente com os sobreviventes de dores profundas, “co-dependentes” das compulsões familiares. Caberia, no entanto, fazer uma ressalva no que se refere à identificação das dores e vivências traumáticas da criança-ferida, alertando que este tipo de identificação de necessidades é diferente de identificar-se com a criança-interior triste e ferida, que normalmente sente-se impotente e perdida, incapaz de auto-proteger-se. Faz-se necessário, portanto, acolher as dores e não enredar-se nelas, como fazem as pessoas nas quais foi constelado o complexo do bode expiatório.

No que se refere às questões centrais, inicialmente é preciso apresentá-las, para posteriormente curá-las. WHITFIELD in J. ABRAMS ²²6, enumera-as à seguir, baseado na proposição de diferentes clínicos e autores: [controle, confiança, sentimentos, ser excessivamente responsável, negligenciar suas próprias necessidades, pensar e agir do modo tudo-ou-nada, ter alta tolerância por comportamentos inadequados e ter baixa auto-estima.] A estas acrescentou o próprio autor: [ser real, sofrer as perdas até então não sofridas, o medo do abandono, a dificuldade em resolver conflitos e a dificuldade em dar e receber amor.]

                    Estas questões estão na base de muitos sintomas apresentados pelas crianças-feridas vitimizadas, o que demonstra que os mesmos podem apresentar-se de forma camuflada e/ou indireta. Cabe, portanto, ao clínico conhecer e discernir as diferentes “roupagens” que as dores das crianças-interiores podem adquirir.

Algumas questões necessitam ser ampliadas devido à intensidade com que costumam surgir no universo das crianças-feridas apresentadas neste estudo: a negligência às próprias necessidades, a tolerância à comportamentos destrutivos, por seu caráter co-dependente; a expressiva baixa-estima, devido ao acúmulo de projeções negativas; e, a impossibilidade de confiar no mundo, devido as muitas traições sofridas.

Autor propõe que após a identificação, elaboração e modificação das questões centrais, torna-se possível que um processo de transformação se efetive. No caso da criança-ferida, esta transformação passa muito próxima da busca do sentido da vida, normalmente perdido. Para tanto, faz-se absolutamente necessário aceitar o sofrimento conscientemente, aceita-lo e integrá-lo como parte inevitável do viver. J. CAMPBELL ²²7, diz que esta é a grande saga do herói:

                    [O importante é viver a vida em termos de experiência e, portanto, de conhecimento, do mistério intrínseco da vida e do seu próprio mistério. Isso confere à vida uma nova radiância, uma nova harmonia, um novo esplendor. (…) Você aprende a reconhecer os valores positivos daqueles que aparentam ser os momentos e aspectos negativos da sua vida. A grande questão é saber se você vai dizer, de coração, um sonoro sim ao desafio.(…) A saga do herói, a aventura de estar vivo.]

Técnicas para acessar a criança-interior-ferida existem muitas, mas o importante é estar ciente de que o encontro com a criança-interior é o início de uma longa trajetória rumo à totalidade. Nas palavras de BRASHAW in J. ABRAMS ²²8:

[A jornada em busca da criança-interior é a jornada do herói. Tornar-se uma pessoa que funciona plenamente é uma incumbência heroica. Existem provas e tribulações ao longo do caminho. Na Mitologia Grega, Édipo matou o pai, Orestes, a mãe. Deixar os próprios pais para trás é um obstáculo que a pessoa deve superar em sua jornada heroica. Matar os pais é uma forma simbólica de descrever a saída da casa paterna e o processo de crescimento. Encontrar nossa criança-interior é o primeiro salto por sobre o abismo do sofrimento que nos ameaça a todos. Mas encontrá-la é apenas o início. Por causa de seu isolamento, de seu abandono e de suas carências, essa criança é egocêntrica, fraca e assustada, ela deve ser disciplinada para poder liberar seu tremendo poder espiritual.]

                    Mesmo poder espiritual e de vida que possua Azazel, antes de ser deturpado e destruído no universo psíquico humano. O presente estudo trata, portanto, de pessoas que na sua essência carregavam muita luz e que foram punidas pela escuridão que habitava a alma das pessoas que amava. Mas a luz, ainda que tenha sido, exilada, existe, e ela traz uma crença na vida e na possibilidade de redenção humana que somente as crianças se atrevem a sonhar. FERNANDO PESSOA, ao contar uma lembrança antiga, retrata esta “fé de criança na vida”, quase perdida nos sonhos dos adultos:

[O luar quando bate na relva.

                    Não sei que cousa me lembra.

                    Lembra-me a voz da criada velha

                    Contando-me contos de fadas.

                    E de como Nossa Senhora vestida de Mendiga

                    Andava à noite nas estradas

                    Socorrendo as crianças maltratadas.

                    Se eu já não posso crer que isso é verdade.

                    Para que bate o luar na relva?]

Se não houver a crença de que alguém socorrerá um dia as tantas crianças-maltratadas, ara que servirá toda a ciência, a filosofia, a própria psicologia? Se todo este aparato não tocar o coração humano, de nada adiantará.

  1. O REENCONTRO DA CRIANÇA INTERIOR. São Paulo. Cultrix. 1994. P. 172
  2. Op. Cit. P. 156
  3. op. Cit. P. 162
  4. op. Cit. P. 159.
  5. Op. Cit. p. 162.
  6. O PODER DO MITO. São Paulo. Palas Athena. 1990. P. 173
  7. O REENCONTRO DA CRIANÇA-INTERIOR. São Paulo. Cultrix. 1994. P. 216.