Capítulo XVI

CAPÍTULO XVI

PSICOLOGIA DO MAL

A Integração da Sombra

         A Psicologia do Mal foi apresentada em capítulos precedentes, visando denunciar a premente necessidade de se trabalhar o lado sombrio que espreita os indivíduos, suas famílias e a sociedade. Faz-se necessário falar desse mal, compreendendo que as paixões humanas existem e necessitam ser confrontadas e integradas se o ser humano almeja uma sociedade verdadeiramente humana. No presente capítulo, o caminho de encontro com a sombra será trilhado visando desativar a Maldição Familiar de criar e imolar “inimigos”. A discussão partirá dos indivíduos feridos, buscando redimir o coletivo.

  1. STONE & S. WINKELMAN in J. ABRAMS201, atribuem a gênese da Destrutividade humana à perda da criança interior:

            [A perda da criança-interior é uma das maiores tragédias do processo de crescimento. Com essa perda, perdemos uma grande parte da magia e do mistério de viver, a delícia da intimidade de um relacionamento. Grande parte da Destrutividade que expressamos uns para com os outros resulta da nossa falta de ligação com as nossas sensibilidades, nossos temores, nossa própria magia.]

            Esta tragédia que se perpetua em destrutividades é a matriz de dor das famílias feridas: uma sucessão de crianças –interiores-feridas. W. Reich202 adverte que o sacrifício da criança-interior é quase inevitável, devido à forma deturpante como se conduz o processo “educativo” das crianças:

           [Se Cristo era o princípio da espontaneidade e da franqueza simples, daquilo que a vida era antes de ser bloqueada e virada do avesso, então todo o recém-nascido carrega um princípio de Cristo dentro de si, que é sistematicamente atacado por todos os métodos de criação que se sucedem na danificação da vida emocional da criança. Neste sentido, toda criança que foi bem sucedida em sua adaptação às cruéis exigências das normas culturais tem que morro internamente. As couraças são apenas os sinais visíveis de sua morte e rigidez. Neste sentido, toda criança que passou por um processo tão repressivo foi simbolicamente crucificada.]

Acrescenta-se à esta advertência de Reich, outro alerta, retratado anteriormente sob a denominação de Maldição Familiar ou Equilíbrio do Terror, nos quais, a educação infantil se prestava mais a atender projeções sombrias dos pais do que a atender o desenvolvimento humano das crianças, talvez esta seja a razão das “crucificações”: uma humanidade formada por crianças crucificadas, só pode estar ávida por outras crucificações. Este é o resultado da briga pela domesticação dos instintos.

As tentativas de subjugar os instintos seria, segundo Reich e C. G. Jung no Capítulo III, a briga do ser humano contra sua própria humanidade, ou seja, contra sua natureza instintual e animal. O enaltecimento da razão levou o ser humano à exilar-se do corpo e de suas necessidades. Esta repressão dos instintos, nas crianças-adulto-feridas explica a vitimização infantil, principalmente do abuso sexual, uma vez que a sexualidade há muito tempo foi considerada sombria e destrutiva, conforme elucida W. REICH203:

[A repressão sexual é de origem econômico-social e não biológica. Sua função é assentar o fundamento para uma cultura patriarcal e autoritária e para a escravidão econômica. Na sua vida sexual, o período primitivo da humanidade foi fiel às leis naturais, que estabeleceram o fundamento de uma sociedade natural. Empregando a energia da sexualidade suprimida, o período intermediário da sociedade patriarcal autoritária dos últimos quatro ou seis mil anos produziu a sexualidade secundária, perversa e distorcida do homem moderno.]

            Sobre esta distorção da sexualidade, tornada sóbria, METZGER in C. ZWEIG204, aborda a tragédia da dessacralização da sexualidade para a humanidade, um verdadeiro exílio dos deuses e supressão dos próprios mistérios humanos, ou seja, [os mistérios de Elêusis, que deram a imortalidade, foram suprimidos; os mistérios de Cabeiri, criados especificamente para redimir aqueles que tinham sangue nas mãos, foram suprimidos; a procriação foi impregnada de ansiedade e culpa; os festivais de fertilidade, que ofereciam um laço entre a terra e o espírito, foram condenados. Quando os sacerdotes separaram o corpo dos deuses, separaram o divino da natureza e, assim, criaram a clivagem mente-corpo. O mundo foi secularizado. Podemos apenas especular acerca das consequências disso, em bora devamos assumir que houve consequências quando os homens retornavam da guerra e não mais podiam limpar o sangue de suas mãos, quando a comunhão física e cotidiana entre os deuses e as pessoas não mais podia ser celebrada. Não foi a própria mulher que foi atacada, mas os deuses que foram exilados. Talvez o mundo tal como o conhecemos – impessoal, abstrato, deslocado e bruto – já estivesse engendrado nessa visão.]

            Alguns autores traduzem este exílio dos deuses, portanto, à tendência moderna e contemporânea de negligenciar as poderosas forças instintivas da psique, numa busca de subjugá-las, como se pretendeu domar a natureza com o advento da Ciência, [a religião dominante nos últimos 200 anos], conforme se refere E. C. WHITMONT205. Uma denominação baseada na alienação, no esvaziamento do significado do viver e da massificação humana, com o extermínio da individualidade. Os rituais patriarcais estão voltados à repressão dos afetos, incentivando à cisão ego/self, com a mortificação do corpo e do desejo, sob a égide de um Deus, um Pai irado, que é juiz e legislador dos pecados da humanidade.

Os mistério da Vida e seus rituais redentores, foram negligenciados e com eles foram banidas as possibilidades humanas de lidar construtivamente com suas paixões, conforme adverte E. C. WHITMONT206

[Todo e qualquer afeto que, em sua forma bruta e inalterada, seja por demais intensa para ser controlado apenas pelo exercício da vontade pode requerer um ritual. Sem ritual, tais energias podem inundar o ego e forçá-lo a uma atuação compulsiva ou a um comportamento obsessivo. O ritual confere contenção e aceitação, controle da intensidade, ‘dosagem’. A personalidade consciente pode aprender a desidentificar-se dos afetos evocados, ao mesmo tempo que se relaciona com eles. Configura-se um padrão de totalidade que permite ao indivíduo resistir as tensões de emoções opostas e equilibrar os afetos com as necessidades e os objetivos do ego. O ritual oferece-nos uma alternativa à repressão quando precisamos lidar com um afeto potencialmente esmagador.]

            Faz-se necessário salientar e distinguir o ritual redentor que ora se discute, dos rituais compulsivos, ou melhor, atuações compulsivas ritualizadas, até então apresentadas. O autor207 corrobora esta ideia, ao esclarecer o que concebe como atuação compulsiva:

            [Como atuação compulsiva queremos dizer a manifestação deliberada de impulsos pessoais na forma de um desabafo, para a imediata satisfação de uma ânsia, ou a vazão involuntária – geralmente inconsciente e compulsiva – de uma pressão interior. A pessoa simplesmente faz o que quer, sejam quais foram as consequências. Esse comportamento é muitas vezes racionalizado e justificado com explicações do tipo ‘Não consegui me controlar’, ‘Não sei o que me deu’, ‘Não tinha a intenção, desculpe!’ A atuação compulsiva é uma maneira de usar Uma saída segura ou de desafiar diretamente uma inibição do superego. Pelo menos temporariamente, a atuação compulsiva serve para aliviar a tensão e a ansiedade, mas ajuda muito pouco, se é que ajuda, a integrar os impulsos e seus efeitos – no melhor das hipóteses indesejáveis – podem ser francamente destrutivos.]

            Estes efeitos destrutivos, não integrados, constituem a tragédia da Maldição Familiar, neste estudo analisada. As atuações compulsivas ritualizadas, vitimizam as crianças, tanto dentro das famílias como na coletividade. Portanto, ao contrário, o ritual de que trata o presente capítulo, refere-se a utilização construtiva das forças psíquicas, inclusive daquelas consideradas sombrias, conforme igualmente elucida E. C. WHITMONT208:

[O ritual pode humanizar e personificar a violência e a agressão, tornando-as assertividade, mediante um processo que tem semelhanças com a da imunização. O elemento nocivo é primeiro identificado e exteriorizado, é expulso como o bode expiatório e se torna objeto de meditação (incubado como uma cultura de bactérias). Num segundo momento, é reintroduzido (‘reinjetado’) por meio da encenação ritual; é reconhecido, constatado e acolhido como algo que nos pertencia. Não pode ser expulso apenas pela força da vontade, mas precisa ser usado de modo responsável, sob circunstâncias apropriadas e no momento oportuno. Como resultado dessa integração consciente, por mais surpreendente que possa parecer, o impulso muda sozinho sua natureza: seu potencial obsessivo e destrutivo diminui e seus aspectos proveitosos se tornam disponíveis. Recebido de volta em circunstâncias tão propícias. Dionísio-Azazel nos oferece uma nova perspectiva. Através da integração consciente, não estamos mais desprotegidos e obsessivamente à mercê do afeto. ‘Aquele que fere curará.]

            Na dinâmica ritual acima apresentada e na qual a sombra é integrada, o autor refere-se à uma encenação ritual, que caracteriza como Jogo Dramático, que possui o lúdico como base. Caberia elucidar que, para ele, o lúdico encontra-se na base de quase todas as atividades humanas, enquanto determinante inconsciente. Logo, o jogo dramático ou psicodrama é o próprio ritual, oferecendo uma maneira simbólica de lidar em segurança com os impulsos, sentimentos ou fantasmas arquetípicos. Nas palavras de E. C. WHITMONT209:

[O jogo humano é a reencarnação deliberada, microcósmica, vicária, da dinâmica do fluxo da vida, com seus padrões em mutação, suas descobertas, seus inícios, fins e recomeços. No ato lúdico, a fantasia e a pragmaticidade se intercomplementam, a mente mensura a si mesma e faz experimentos com a existência. O jogo da vida mobiliza e estrutura a existência. O jogo d vida mobiliza e estrutura as forças da psique inconsciente. Confere forma a energia bruta, civiliza.]

Desta forma, propõe o autor que o ritual contemporâneo seria o psicodrama, ou seja, a vivência dramática, jogo simbólico dos elementos da sombra. Para tanto, E. C. WHITMONT210 descreve passos para o que chamou de encenação, a dramatização dos dramas pessoais que incorporam a vivência corporal, o estrato mágico da psique, com a atividade mental.

O primeiro passo, é permitir que todas as fantasias “inconfessas”, os medos, as rivalidades, ciúmes, invejas e destrutividades emerjam. Aqui, encontra-se a proposta do que neste estudo foi chamado de Psicologia do Mal, isto é, aceitação de impulsos destrutivos inerentes ao ser humano, os quais guardam um poderoso poder criativo, somente quando confrontados. Uma psicologia que confronta a sombra precisa ser incrementada.

O passo seguinte consistiria na encenação, propriamente dita das fantasias sombrias, criando um peça teatral, na qual a substituição dos impulsos em cenas improvisadas, carregadas de afeto, com ações e verbalizações específicas também espontâneas, realizada em grupos com desempenho de papéis intercambiáveis, propiciam uma vivência “como se”, capaz de transformar impulsos destrutivos em vivências construtivas e conscientizadoras. Este processo consistiria o ritual contemporâneo de integração da sombra. Elucida ainda E. C. WHITMON211:

[…a encenação, como a que é elaborada no ritual psicodramático, esforça-se para ser uma manifestação simbólica e não literal dos impulsos problemáticos, inaceitáveis ou perigosos. Utiliza uma forma segura, consciente e relativamente controlada, para proporcionar a assimilação e a transformação civilizadora. É simbólica na medida em que busca a ‘melhor expressão possível dentro dos limites da segurança e da aceitabilidade, o que significa manifestar diretamente uma parte do impulso a fim de que a outra parte possa ser alterada e se torne um fator positivo de crescimento ou do relacionamento.]

            Acrescentando, que os fatores sombrios que os novos rituais terão que integrar nos rituais psicológicos contemporâneos, são a impotência, alienação, desamparo, desespero, frustrações emocionais e sexuais (prevenindo o A. S. I.); necessidades insatisfeitas de afirmação e de afeto (pais feridos que exigem o amor dos filhos), inveja, despersonalização, projeção paranoica da sombra (vide o bode expiatório). Afirmando que estes fatores sombrios não podem ser acessados e elaborados por intermédio da vontade ou da reflexão, mas necessita de um ritual que transforme as energias e os afetos.

Transformação é o elemento primordial de um verdadeiro ritual. O referido autor, conta que o iniciado nos Mistérios de Elêusis, para atingir a luz necessitava passar pelo útero sombrio, e neste processo de iluminação, necessitava enunciar as seguintes consígnias interiores: “Eu vi”, “Eu disse”, “Eu fiz”. Analisando diante da Síndrome do Segredo, pode-se comparar a viagem da criança-ferida abusada sexualmente à trajetória do iniciado nos Mistérios, ou seja, a criança-ferida ou a criança-adulto-ferida, necessita primeiramente ver o abuso como tal, enxergar a própria vitimização; em seguida precisa dizer, denunciar sua dor, para posteriormente libertar-se, (re)fazer sua sexualidade e afetividade. A partir desta trajetória pelos Mistérios, a criança-ferida pode efetivamente [transformar o padrão dos eventos], que segundo E. C. WHITMON212 [é o efeito de um rito] e complementa:

[A encenação carregada de emoção dirigida a uma imagem (cena teatral) transforma os padrões de comportamento e dos eventos através da analogia, da similaridade e da sincronicidade. O efeito da representação e das encenações simbólicas apoia-se no fato de que, ao se valer da visão analógica, a consciência pode apreender e, pelo menos em parte, direcionar o fluxo da energia.]

Este redirecionamento de energia deve, num primeiro momento, constituir-se num ritual individual e intra-psíquico, como devem ser encarados os rituais contemporâneos, conforme afirma E. C. WHITMONT214 não considera suficiente, afirmando que a esta condição devem ser associados outros fatores, principalmente no que se refere a “ação externa”, que considera fundamental, uma vez que o ego moderno encontra-se expressivamente dependente da comunidade na qual está inserido. Logo, prevê a ampliação do ritual, inicialmente individual, para a ritualização interpessoal e grupal.

Sugere ainda, que o caminhar rumo a uma maior conscientização deve ser conduzido pelo self e não mais pelo superego, corroído pelos ditames da cultura patriarcal. Isto gerará um maior afrouxamento das regras de condutas externas, cujo efeito não será mais tão aterrador, para que um código de valores interno emerja. Para tanto, o viés condutor desta transformação deverá ser o respeito. O respeito por si próprio que, inevitavelmente gerará o respeito pelo outro, logo (re)criará uma sociedade que respeita seus membros, em função da consciência, que erigirá uma nova ordem social, incapaz de gerar vítimas e agressores. Uma sociedade que respeitará o corpo e a sexualidade, como manifestação da vida. Nas palavras de E. C. WHITMONT215:

[A sexualidade é uma manifestação fundamental da energia psíquica. É um canal indiferenciado de força básica, de fogo cósmico. Pulsa numa identificação voluptuosa com a própria energia vital, com suas marés altas e baixas e suas inundações. Movimenta-se dentro de nós por meio de revoluções elementais. É um canal do poder, de autorealização, da transcendência extáltica, da rendição do eu, da renovação. Os rituais sexuais pagãos não eram apenas procedimentos agrícolas ou ginecológicos de fertilidade; eram também celebrações da morte e da renovação, mistérios que permitam vivenciar a Grande Deusa e seu filho, senhor da morte e do renascimento.]

            Esta constitui a dimensão arquetípica que a sexualidade vivida na sua totalidade necessitava. Outras abordagens psicológicas, distintas da junguiana, precisam acrescentar esta visão transpessoal à vivência sexual libertária na qual o coração é o centro da revolução pessoal e social, conforme anuncia T. PHILIPSON216:

[É decorrência natural, de nosso ponto de vista, que em pessoas saudáveis a sexualidade e amor estarão sempre juntos. O sexo virá do coração e a ele voltará. É bastante compreensível que a condição para uma ligação entre os sentimentos de amor no coração e a sexualidade é um movimento livre dentro do organismo. Somente sob esta condição, a força do amor é capaz de ofertar o organismo todo, de modo que o centro anatômico é também um centro funcional para todo o organismo. O que também pode ser expresso da seguinte forma: o sentimento da vida será capaz de se espelhar dentro do organismo do centro e preencher todo o organismo. O que significa dizer que a pessoa totalmente saudável deve ser a pessoa com sentimentos de amor inteiramente livres, capaz de permiti-los fluir livremente e em todas as direções dentro do organismo. Desta forma, seu amor estará em tudo: coração, olhos, cérebro e em todos os seus sentimentos, corpo e alma. Quando for o caso, outros sentimentos também serão capazes de se espalhar pelo corpo inteiro: raiva, tristeza, angústia, etc – e o organismo como o ponto mais alto da sexualidade, também será capaz de afetar o organismo todo.] E esta inclusão e expansão do coração, irá revolucionar a sociedade. Esta revolução propõe S. GRIFFIN217:

                [O psíquico é simplesmente mundo. E se eu me deixar amar, me deixar tocar, penetrar em meu próprio prazer e desejo, penetrar no corpo do outro, a escuridão, deixar que as partes escuras de meu corpo falem, língua na boca, na linguagem do corpo, então uma parte de mim que eu julgava real começa a morrer. Desci até a matéria, sei o que sou profundamente, grito em êxtase. Pois no amor, rendemos nossa unicidade e nos tornamos mundo.]

            E complementa C. ZWEIG218: [se nos tornamos mudo através do amor, então o amor é um ato essencialmente político. Se nos tornamos mundo atingindo os deuses, então o amor é um ato essencialmente espiritual que redime o mundo.]

            O confronto amoroso com a sombra, possibilita outras reconciliações, conforme afirma SCHOMOOKLER in C. ZWEIG & J. ABRAMS219: [amar o inimigo dentro de nós mesmos não elimina o inimigo lá fora, mas pode mudar o nosso relacionamento com ele. Quando o mal deixa de ser demonizado, somos forçados a lidar com ele em termos humanos. Essa é, a um só tempo, uma tarefa espiritual potencialmente dolorosa e uma oportunidade para a paz espiritual. Esse é sempre o caminho da humanidade (…) O coração nas trevas é o nosso próprio coração.]

            Este integrar da sombra, pode ser concluído nas palavras de E. C. WHITMONT220: [ao trabalhar desta forma com os estranhos atemorizantes, as bestas perigosas e os órgãos desprotegidos que povoam a alma, mais cedo ou mais tarde, a pessoa chegará às resistências, aos julgamentos rejeitadores, aos códigos morais preconceituosos, às limitações autodestrutivas que emanam dos patriarcas potencialmente castradores que residem dentro de sua própria mente. Na realidade, cada nova descoberta de ânsias até então identificadas traz consigo a descoberta de uma ordem que impede que esse dinamismo desabroche e encontre um lugar apropriado no padrão geral das coisas. No transcurso desse processo, descobrimos tanto o juiz superegóico inflexível quanto o bode expiatório rejeitado de nossa psique. Essa descoberta oferece-nos a oportunidade de integrar ambas as dimensões e uma perspectiva mais real, a nosso próprio respeito; de aceitar nossas limitações, fraquezas e incapacidades e encontrar um espaço cada vez maior para a criança problemática e rejeitada que há em nós.]

            Acolhimento da criança-ferida que habita na Alma adulta, retira a criança-interior da posição de vítima fadada a questionar o porquê de ser a escolhida ou o porquê de seu destino, para atingir um outro patamar da existência, com as questões que norteiam a Jornada de Herói, que a cada passo pergunta-se sobre o sentido da própria existência, do caminho que o próprio coração delineia.

  1. B. PERERA221, fala da sabedoria do coração no caminhar para a maturidade: [independente, do quanto os pais e os avós possam ter pecado em relação à criança, o homem verdadeiramente adulto aceitará tais pecados como representando sua própria condição, à qual deverá daptar-se. Somente um tolo se incomoda com a culpa alheia, uma vez que não poderá alterá-la. O sábio aprende apenas com sua própria culpa. Este pergunta a si próprio: Quem sou eu para merecer tudo isso? Para encontrar a resposta a essa pergunta fatal ele deverá olhar para dentro do próprio coração.]

E por fim, conclui E. C. WHITMONT222: [a encenação ritual, em lugar de atuação compulsiva, de nossos complexos pessoais nos faz espectadores participantes conscientes e cooperativos e não mais vítimas inconscientes do drama de nossa vida. Através dessa participação voluntária podemos nos tornar testemunhas, Martyroi (o termo grego martyros significa testemunha) do drama de nossa própria tragédia e comédia, do canto e da dança do deus bode que existe em nós, de nossa dolorosa e muitas vezes engraçada evolução. Já não precisamos ser supostos mártires involuntários e vítimas inconscientes de uma vida que parece estar sempre nos colocando em desvantagens. Tampouco precisaremos continuar projetando o bode expiatório nos outros, sejam amigos ou inimigos.]

            O próximo capítulo é um convite à pureza, através do reencontro com a criança-ferida.

  1. REENCONTRO DA CRIANÇA INTERIOR. São Paulo. Cultrix. 1994. P. 164
  2. ALMANAQUE DO AMOR. São Paulo. Busca Vida. 1988. P. 144
  3. Op. Cit. p. 141
  4. MULHER: Em busca da Feminilidade Perdida. São Paulo. Gente. 1994. Pp. 272-3.
  5. RETORNO DA DEUSA. São Paulo. Summus. 1991. P. 262.
  6. Op. Cit. p. 258.
  7. Op. Cit. p.277.
  8. Op. Cit. p. 270.
  9. Op. Cit. p. 264.
  10. Op. Cit. p. 258.
  11. Op. Cit. P. 277.
  12. Op. Cit. p. 267.
  13. Op. Cit. p. 261
  14. Idem. Ibdem.
  15. Op. Cit. p. 277.
  16. ALMANAQUE DO AMOR. São Paulo. Busca Vida. 1988. p. 141.
  17. MULHER: Em Busca da Feminilidade Perdida. São Paulo. Gente. 1994. P. 275
  18. Idem. Ibdem.
  19. AO ENCONTRO DA SOMBRA. São Paulo. Cultrix. 1991. P. 213
  20. RETORNO DA DEUSA. São Paulo. Summus. 1991. p. 280.
  21. O COMPLEXO DO BODE EXPIATÓRIO. São Paulo. Cultrix. 1991. P. 91.
  22. RETORNO DA DEUSA. São Paulo. Summus. 1991. P. 280.