Capítulo XV

CAPÍTULO XV

 DOMINANDO O MEDO

Anteriormente, o desenvolvimento psicossomático sombrio da criança-ferida, foi discutido enquanto sequela do processo não protetor e abusivo do universo ferido no qual a criança está inserida. O capítulo que ora se apresenta pretende dar ao medo, seu papel decisivo que possui, principalmente na perpetuação da Maldição Familiar, ao transformar as vítimas em potenciais de agressão, para em seguida, tecer as propostas que desativem tais mecanismos de destruição.

Para tanto, inicialmente, faz-se necessário sentir o quão devastador é para a criança perceber o ódio ameaçador que impregna a Alma de seus pais, conforme A. LOWEN186:

            [O efeito de furor dos pais sobre a criança é o terror (…) A expressão de ódio no rosto dos pais é algo que nenhuma criança consegue compreender ou aguentar. É uma ameaça à existência da criança. Já observei pais olharem com ódio para seus filhos. Já ocorreu no meu consultório sem que os pais se dessem conta de sua expressão. O rosto da mãe escureceu, como se uma nuvem negra tivesse descido sobre sua fronte e seus olhos. Sua mandíbula enrijeceu. Os olhos se tornaram frios e duros. Era um olhar assassino. Diante de tal quadro a criança se encolhe de terror.]

            Nos episódios de espancamentos, que ocorrem sem testemunhas, e nos quais o furor parental pode exprimir-se sem rodeios, torna-se quase impossível mensurar o terror que as crianças-feridas vivenciam. Impossibilitados de fugir, as crianças precisam submeter-se, para garantir sua existência, segundo ainda esclarece A. LOWEN187:

            [No terror, o sistema muscular paralisa se, ornando-se impossível qualquer forma de fuga ou luta. O terror, forma mais intensa de medo do que o pânico, desenvolve-se em situações onde qualquer esforço para resistir ou escapar surge sem esperança.  O terror é uma forma de choque; a sensação é retirada da periferia do corpo, reduzindo a sensibilidade do organismo, para sua antecipada agonia final. Representa uma fuga para dentro.]

  1. GOLEMAN218, demonstra a correspondência cerebral desta dinâmica de terror expressa em termos corporais, enfatizando que a impotência frente à violência é o fator decisivo para desencadear o Distúrbio de tensão pós-traumática – P.T.S.D.:

            [A palavra-chave é ‘incontrolável’. Se as pessoas sentem que podem fazer alguma coisa numa situação catastrófica, exercer algum controle, por menor que seja, saem-se melhor, em termos emocionais, do que as que se sentem absolutamente impotentes. O elemento da impotência é que torna um determinado fato ‘subjetivamente’ arrasador.  Como disse o Dr. J. Krystal, diretor do Laboratório de Psicofarmacologia Cínica do Centro Nacional do Distúrbio da Tensão Pós-Traumática:

            – Digamos que alguém que é atacado com uma faca sabe se defender age, enquanto outra pessoa na mesma situação pensa: ‘Estou morto’. A pessoa impotente é a mais suscetível de P.T.S.D. depois. É a sensação de que a vida da gente está em perigo e a ‘gente fazer nada para escapar’, é esse o momento em que começa a mudança no cérebro.]

            O autor esclarece a importância da amígdala, como cerne das modificações cerebrais acima citadas. A amígdala é a sede de todas as paixões, logo as memórias emocionais nela estão contidas. A amígdala e o hipocampo na evolução, deram origem ao córtex e depois ao neocórtex, responsáveis por grande ou a maior parte do aprendizado e da memória do cérebro. Nas palavras de D. GOLEMAN189: [A amígdala atua como um depósito da memória emocional, e portanto do próprio significado; a vida sem a amígdala é uma vida privada de significados emocionais.] Aqui encontra-se a matriz da cura da criança-ferida e da criança-adulto-ferida vitimizada. Para tanto, é preciso descobrir os meios para tocar e elaborar este depósito da memória emocional?

            Inicialmente, faz-se necessário compreender a relação entre a amígdala e o neocórtex, uma vez que o funcionamento e a interação de ambos, estão no centro da inteligência emocional. A tese desta linha de pensamento denominada Inteligência Emocional, encontra respaldo nas teorias do neurocientista LEDOUX190, que propõe que o sistema emocional pode agir de modo independente do neocórtex, ou seja, sustenta a ideia de que [algumas reações e lembranças emocionais podem formar-se sem absolutamente nenhuma participação consciente e cognitiva.] Esta premissa abre novas perspectivas para a compreensão do funcionamento emocional, conforme afirma ainda D. GOLEMAN191:

            [Essa descoberta põe abaixo inteiramente a ideia de que a amígdala tem de depender inteiramente de sinais do neocórtex para formular suas reações emocionais. A amígdala pode acionar uma resposta emocional por essa rota de emergência, no momento mesmo em que um circuito ressonante paralelo se inicia entre a amígdala e o necórtex. A amígdala pode fazer-nos lançar à ação, enquanto o neocórtex – ligeiramente mais lento, porém mais plenamente informado – traça seu plano de reação mais refinado.]

            Em traumas emocionais, incluindo os repetidos maus tratos físicos na infância, ocorre uma superestimulação da amígdala, causando ferimentos emocionais que deixam a marca no cérebro por modificação nos circuitos límbicos que se concentram na amigdala, nos quais o P.T.S.D., constitui um dos principais sintomas de medos aprendidos. Esclarece o autor que as mudanças-chaves ocorrem na secreção pelo cérebro de adrenalina e noradrenalina, os neuroquímicos que mobilizam o corpo para uma emergência e intensificam a fixação das lembranças com uma força especial. No P.T.S.D., este mecanismo torna-se superativado, ou seja, passa desencadear a resposta alarmante, mesmo em situações que o risco não é compatível, com secreção de altas dosagens destes produtos químicos, ativados pelos lembretes do trauma original.

Estas modificações neuroquímicas provocam alterações em outras estruturas límbicas como o hipocampo e o hipotálamo, estendendo-se até o córtex, conforme elucida D. GOLEMAN192: [Julga-se que as mudanças nesses circuitos estão por trás dos sintomas do P.T.S.D., que incluem ansiedade, medo, hipervigilância, fácil irritação e provocação, disposição para lutar-ou-fugir, e indelével codificação de intensas lembranças emocionais.] Acrescenta: [outras mudanças se dão no circuito que liga o cérebro límbico à glândula pituitária, que regula a libertação de CRF, o principal hormônio de tensão que o corpo secreta para mobilizar a resposta lutar-ou-fugir numa emergência. As mudanças levam a uma supersecreção desse hormônio (…) alertando o corpo para uma emergência que na verdade não existe.]

            As explicações acima apresentadas, elucidam grande parte dos mecanismos de defesa cronificados e inconscientes que atuam nas crianças-feridas vitimizadas, tais como, a contínua sensação de insegurança, algo como se sempre um perigo iminente rondasse sua existência, que constituem os resquícios mnemônicos do abuso original não integrado ou decodificado pelo neocórtex, atuando no nível das “paixões”, e dos medos não identificados, registrados na amígdala.

Estes medos inconscientes, muitas vezes chegam ao consultório sob o disfarce de medo da insanidade. O paciente alega sentir medo de enlouquecer. Neste tocante, esclarece A. LOWEN193:

                [Numa camada abaixo do medo da insanidade há um terror que é muito mais apavorante, uma vez que não possui nome nem rosto. Seu horror se expressa em imagens tais como uma picada de cobra. Este terror acha-se à espreita nas profundezas de cada indivíduo (…) e pode ser comparado à uma bomba que não explodiu.] Aqui encontra-se o potencial destrutivo da vítima, pronto para ser deflagrado, desde que alguma coisa toque lembranças segredadas e silenciadas. A. LOWEN194, adverte que um medo intenso abriga raiva intensa, ou seja:

[A pessoa que tem seu direito de expressar raiva negado, torna-se indefesa. É reduzida a uma condição de medo e impotência que tentará superar manipulando seu ambiente. Foi demonstrado bioenergéticamente que subjacente a todos os sentimentos crônicos de medo e desamparo está a raiva deprimida. A correspondência entre medo e raiva é tão grande que um se transforma no outro.] Esta ideia da “transmutação” do medo em raiva pode sustentar a tese da transformação da vítima em agressor, o que torna a vítima não vingada, um abusador potencial.

Faz-se necessário enfatizar que o P.T.S.D., se desenvolve com maior intensidade nos atos de violências deliberadas dos seres humanos contra seus iguais, mais perniciosos que as dores geradas por catástrofes naturais. Pois os primeiros trazem a ideia da vítima escolhida, conforme afirma D. GOLEMAN195:

[Os atos de violência são mais perniciosos que catástrofes naturais como furacões porque, ao contrário das vítimas de um desastre natural, as de uma violência se sentem intencionalmente escolhidas como alvos de maldade. Este fato despedaça as crenças sobre a confiabilidade das pessoas e a segurança do mundo interpessoal, crenças que as catástrofes naturais deixam intatas. Num instante o mundo social torna-se um lugar perigoso, em que as pessoas são ameaças potenciais à nossa segurança.]Ou seja, estes atos de violência, constelam bodes expiatórios e universos familiares feridos.

O referido autor, adverte para um terceiro conjunto de mudanças, no chamado sistema opióidicos do cérebro, responsável pela secreção de endorfina para amortecer a sensação de dor, que se torna hiperativo. Isto produz uma maior tolerância à dor. Nas palavras de D. GOLEMAN196:

[Mudanças na endorfina dão uma nova dimensão à mistura neural pela reexposição ao trauma, um ‘entorpecimento’ de certas sensações. Isso parece explicar um conjunto de sintomas psicológicos “negativos” há muito notados no P.T.S.D.: anedoxia (incapacidade de sentir prazer) e um embotamento emocional generalizado, a sensação de estar isolado da vida ou do interesse pelos sentimentos dos outros. As pessoas íntimas e próximas dessas pessoas podem sentir essa indiferença como ausência de empatia. Outro possível efeito é a dissociação, incluindo a incapacidade de lembrar minutos, horas ou mesmo dias cruciais do fato traumático.]

            A falta de empatia possibilita que a criança-adulto-ferida se torne abusadora, perpetuando a Maldição Familiar; a analgesia da dor, leva a criança a não mensurar o grau da própria vitimização; a dissociação da realidade é uma das características do A.S.I., conforme já foi apresentado; e, a Síndrome do Segredo, com seus lapsos de memória e negação, tornam-se compreensíveis à luz dos registros emocio/cerebrais.

À princípio a cura do P.T.S.D. no cérebro, parecia impossível em função do próprio sistema retroalimentar no qual o medo presente desencadeia o medo passado original. Logo, para que uma transformação ocorra, a ativação do neocórtex é fundamental, possibilitando que em função da atuação cortical, ocorra a liberação da angústia aprendida. Nas palavras de D. GOLEMAN197:

[Uma das mais estimulantes descobertas sobre o P.T.S.D. veio de um estudo com sobreviventes do Holocausto, cerca de três quartos dos quais se constatou terem ativos sintomas do P.S.T.D. mesmo meio século depois. A descoberta positiva foi que um quarto dos sobreviventes outrora perturbados por tais sintomas não mais os tinham; de algum modo, os fatos naturais de suas vidas haviam contrabalançado o problema. Os que ainda tinham os sintomas mostravam indícios de mudanças cerebrais relacionados à catecolamina típicos do P.T.S.D. – mas os que se haviam recuperado não tinham tais mudanças. Essa descoberta e outras iguais oferecem a promessa de que as mudanças cerebrais no P.T.S.D. não são indeléveis, e que as pessoas podem recuperar-se mesmo das mais angustiantes cicatrizes emocionais – em suma, que os circuitos emocionais podem ser reeducados. A notícia boa, assim, é que traumas profundos como os que causam o P.T.S.D. podem ser curados, e que a rota para essa cura passa pelo reaprendiado.]

Reaprendizado emocional envolve uma série de recursos que acessam a imagem congelada na amígdala, por intermédio da linguagem simbólica, tais como, o lúdico, o jogo dramático, o desenho, enfim, diferentes manifestações artísticas. No tocante ao lúdico e ao jogo dramático, estes recursos foram sugeridos por E. C. WHITMONT para integração da sombra, sugerindo que estes recursos constituiriam os rituais contemporâneos, conforme será apresentado no capítulo XVI.

Brincar igualmente foi enfatizado por D. GOLEMAN que o coloca como um meio eficaz de compreensão do trauma, uma vez que possibilita a revivência do mesmo, em ambiente seguro e em condições de modificar seu transcurso, oferecendo à criança-ferida meios de dominar, inda que simbolicamente, a situação original. As manifestações artísticas, como o pintar e o desenhar, possibilitam que a criança-ferida expresse, compartilhe e elabore sua dor. Esta pesquisa apresenta uma série de desenhos, realizados em giz pastel que retratam a dor de uma criança-adulto-ferida abusada sexualmente, em busca de sua verdade obscurecida pelo silêncio, pelo segredo e pelo tempo. Foi através do ato contínuo de simbolizar sua dor que na memória emergiram as lembranças das vitimizações infantis.

  1. GOLEMAN198 apresenta uma trajetória formada por três etapas, rumo ao reaprendizado emocional com a consequente recuperação do trauma, quais sejam: [alcançar um senso de segurança, lembrar os detalhes do trauma e lamentar a perda que ele trouxe, e finalmente restabelecer uma vida normal. Há uma lógica biológica na ordenação dessas etapas, como veremos: essa sequência parece refletir como o cérebro emocional aprende mais uma vez que a vida não precisa ser encarada como uma emergência iminente.]

            No que tange à revivência do trauma original, muitas propostas já foram apresentadas nesta pesquisa. Caberia portanto, agora, analisar algumas advertências feitas pelo autor199 para acessar o depósito da memória emocional, e promover a cura: [Contar e reconstruir na (…) segurança, permitindo que os circuitos emocionais adquiram uma compreensão e respostas novas e mais realistas à lembrança traumática e seus gatilhos. À medida que os pacientes contam os horríveis detalhes do trauma, a memória começa a transformar-se, tanto em seu significado emocional quanto em seus efeitos sobre o cérebro emocional. O ritmo desse contar é delicado; idealmente, imita o ritmo que ocorre naturalmente nas pessoas que podem recuperar-se do trauma sem sofrer P.T.S.D. Nesses casos, muitas vezes parece haver um relógio interno que ‘dosa’ as pessoas com lembranças intrusas, que revivem o trauma, intercaladas com semanas ou meses em que mal se lembram de alguma coisa dos horríveis acontecimentos. Essa alternância de reimersão e alívio parece permitir um exame espontâneo do trauma e o reaprendizado da resposta emocional a ele.]

Ainda, em se tratando de resgatar lembranças, é profícuo recordar que no capítulo Síndrome de Segredo, foi enfatizada a necessidade de nomear o abuso, criando-o efetivamente desta forma. Segundo D. GOLEMAN200, este processo de encorajar o cliente a falar do trauma tem como objetivo [por toda lembrança em palavras, o que significa captar partes dela que podem ter sido dissociadas e portanto estar ausentes do lembrar consciente. Colocando detalhes sensoriais e sentimentos em palavras, supostamente põem-se as lembranças mais sob o controle do neocórtex, onde as reações que elas açulam podem ser tornadas mais compreensíveis e também mais controláveis. O reaprendizado emocional nesse ponto é em grande parte conseguido pelo reviver os fatos e as próprias emoções, mas desta vez num ambiente de segurança, em companhia de um terapeuta em quem se confia. Isso começa a transmitir uma lição reveladora aos circuitos emocionais – de que se pode sentir segurança, e não implacável terror, juntamente com as lembranças do trauma.]

            Processo de conscientização do trauma, carece que lembranças energéticas armazenadas no corpo sejam despertados e assimilados pelo neocórtex. Este Despertar Corporal foi analisado no Capítulo XV.

O reaprendizado emocional é uma trajetória individual rumo a recuperação traumática e o resgate da vida. É um ritual intrapsíquico de integração da sombra, que conduz a criança-adulto-criança à uma dimensão mais profunda e enriquecedora da existência. Esta forma de ritual contemporâneo será tratada sob o título de Psicologia do Mal, enfatizando a necessidade do encontro com a sombra, em todo caminhar, individual ou coletivo, ruma à totalidade.

  1. PRAZER. São Paulo. Summus. 1984. P. 168.
  2. Idem. Ibdem.
  3. INTELIGÊNCIA EMOCIONAL. Rio de Janeiro. Objetiva. 1995. p. 218.
  4. Op. Cit. p. 29.
  5. Op. Cit. p. 32.
  6. Idem. Ibdem.
  7. Op. Cit. p. 219.
  8. O CORPO TRAÍDO. São Paulo. Summus. s/d. p. 48.
  9. PRAZER. São Paulo. Summus. 1984. P. 165.
  10. INTELIGÊNCIA EMOCIONAL. Rio de Janeiro. Objetiva. 1995. p. 216
  11. Op. Cit. p. 220.
  12. Op. Cit. p. 222.
  13. Op. Cit. p. 224.
  14. Op. Cit. p. 225.
  15. Op. Cit. p. 227.