Capítulo XIX

CAPÍTULO XIX

REDENÇÃO DOS AGRESSORES

O Perdão

Após ter libertado a Alma é preciso encontrar a paz. Segundo C. P. ÉSTES ²44 [para quem passou bastante tempo elaborando algum trauma, quer ele tenha sido provocado pela crueldade, negligência, falta de respeito, falta de responsabilidade, arrogância de alguém, quer por obra do destino, um dia chega a hora de perdoar a fim de liberar a psique para que ela volte a um estado normal de calma e paz.]

Acrescentando a autora no que se refere a cura que resgata e redime: [para uma cura real, porém, precisamos dizer a nossa verdade, e não só a nossa dor e o nosso lamento, mas também o mal que foi causado, a raiva e revolta e o desejo de autopunição ou de vingança que foi evocado em nós. A velha curandeira da psique compreende a natureza humana com todas as suas fraquezas e concede o perdão com base no relato da verdade nua e crua. Ela não dá apenas uma segunda chance. Na maior parte das vezes ela dá muitas chances.]

            A busca da verdade individual foi talhada no transcorrer desta pesquisa. Uma ávida tentativa de compreensão foi deflagrada. Agora, caberia promover chances para que a vida reescreva seu destino, desvencilhando-se das amarras que atrelam as crianças-feridas a seus pais feridos. Oferecer uma chance psíquica de redenção. Nas palavras de J. ABRAMS²45: [Para curar a criança-ferida-interior, nós adultos, também devemos aprender a compreender o sofrimento dos nossos pais. Por termos igualmente internalizado esses pais feridos, devemos abrir mão dos julgamentos severos ou do desejo de vingança. Para conseguirmos deter os padrões familiares de abuso e não os transmitirmos à geração seguinte, a imagem internalizada dos pais também precisa ser reconhecida em seu componente ferido. Essa conscientização compassiva é um fenômeno que se desenvolve na vida daqueles adultos corajosos que estão superando sua vergonha e sua dor a fim de acolher e curar a criança-interior-ferida.]

            O reconhecimento dos padrões feridos dos pais, é uma forma de confrontar a sombra familiar, evitando que ela se propague, conforme adverte ainda J. COVITZ in J. ABRAMS ²46:

[É praticamente impossível livrar-se por completo da maldição familiar. Mas os pais podem tomar consciência das manifestações dessa maldição em seus filhos, e podem trabalhar para modificar as condições que o incentivam. Elas têm a oportunidade de mudar tudo o que puderem, a fim de tornar a vida deles mais saudável. Como C. G. JUNG diz: ‘A natureza não se presta a alegação de que não sabia.’]

E enfatiza ainda o autor²47: [As sombras do comportamento dos pais quase sempre podem ser localizadas em suas próprias condutas (dos filhos). É impossível romper a cadeia familiar de abusos de uma forma cabal, desvincular-se inteiramente da própria herança familiar (em seus bons e maus aspectos). Mas o entendimento das bases do comportamento de abuso pode ajudar os pais e os filhos a modifica-lo – e o objetivo é a possibilidade de um passo adiante a cada geração.]

            Esta compreensão ao longo do tempo vai tecendo o perdão nas Almas feridas. E este perdão pode possuir várias camadas e estações, não necessitando ser o único e absoluto.  Podem persistir por muitos anos potenciais residuais a serem purificados e libertados, conforme alerta C. P. ÉSTES ²48:

[O aspecto importante do perdão consiste em começar a persistir. A conclusão do processo é trabalho para toda vida. Você dispõe do resto da sua vida para trabalhar nos percentuais residuais. Na realidade, se pudéssemos entender tudo, tudo poderia ser perdoado. Para a maioria das pessoas, porém, é preciso muito tempo no banho alquímico para chegar a esse ponto. E está certo. Nós dispomos da cura e, por isso, temos a paciência para acompanhar o processo.]

A autora²49 propõe ainda, quatro estágios do perdão, quais sejam:

            [1.- Deixar passar – deixar a questão em paz;

            2.- Controlar-se – renunciar a punição;

            3.- Esquecer – afastar da memória, recusar-se a repisar;

            4.- Perdoar – o abandono da dívida.]

            “Deixar passar” significa ignorar por algum tempo as dores, para poder conviver com alegrias, e com isto construir um significado para a vida, permitindo-se vislumbrar novas possibilidades de existência.

“Controlar-se” significa fazer uso da raiva, do ressentimento e das mágoas, com sabedoria. É usá-las para construir e não mais para destruir.

“Esquecer” é permitir que a lembrança das dores repousem, deixando-as como o aprendizado necessário que permitiu que um outro nível de consciência fosse acessado. Trata-se de um esquecimento consciente, necessário para que a criança-ferida possa reconstruir sua vida.

E conclui C. P. ÉSTES ²50: [Você passa a sentir a tristeza a respeito da circunstância, em vez de raiva. Você passa a sentir pena da pessoa em vez de irritação. Você passa a não se lembrar de mais nada a dizer a respeito daquilo tudo. Você compreende o sofrimento que provocou a ofensa. Você prefere se manter fora daquele meio. Você não espera por nada. Você não quer nada. Não há no seu tornozelo nenhuma armadilha de laço que se estende desde lá longe até aqui. Você está livre para ir e vir. Pode ser que tudo não tenha acabado em ‘viveram felizes para sempre”, mas sem a menor dúvida existe de hoje em diante um novo ‘Era uma vez’ à sua espera.]

Apesar de toda a libertação que a criança-ferida-vitimizada, bode-expiatório, possa ter alcançado, a experiência clínica mostra que há uma sequela que dificilmente será totalmente curada. Trata-se da impossibilidade de reinserção da criança-ferida em sua família, uma vez que o exílio, desta vez voluntário, é inevitável. Seu “Era uma vez”, normalmente se dá em território afetivo longínquo, distante da família que deu origem a sua história. À seguir, a história do Patinho Feio, retratará a dor e o triunfo do exílio.

 

  1. MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS. Rio de Janeiro. Rocco, 1997.p. 456.
  2. O REENCONTRO DA CRIANÇA INTERIOR. São Paulo. Cultrix.1994. p. 157.
  3. Op. Cit. P. 117.
  4. Op. Cit. P. 116.
  5. MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS. Rio de Janeiro. Rocco. 1997. P. 457.
  6. Op. Cit. P. 251.
  7. Op. Cit. P. 461.