Capítulo IX

CAPÍTULO IX

IDENTIFICAÇÃO COM O AGRESSOR

Perpetuação da Maldição Familiar

            [O mais profundo é a pele.]. diz P. VALÈRY 131, é da pele ferida, abusada e espancada, que este estudo denúncia. É a pele ávida de contato e carinho, envolvendo uma criança que está engatinhando ainda no mundo dos afetos, tecendo sua Alma ao tocar a Vida recém-inaugurada, que este estudo busca proteger.

Pode-se mensurar o perigo que corre esta criança nas mãos de pais feridos, que como ela foram traídos em suas entregas emocionais. Regidos por um anseio irrefreável, que parte das profundezas desconhecidas de sua Alma, passa o pai a fazer uso da “pele” da criança-ferida, imprimindo-lhe as mesmas dores que estão tatuadas a sua própria pele, dores que estão tatuadas na sua pele, dores adormecidas no decorrer dos feridos anos de sua sobrevivência.

A criança que pouco conhece dos carinhos, ao ser abusivamente tocada, passa a crer que esta é forma com que as pessoas se acarinham. E começa à tecer uma relação de afeto com este adulto que a acaricia. Desta forma, pode começar a apegar-se ao abusador, sem saber que é desta forma traidora, que este adulto deve ser chamado.

Para melhor compreender este Apego, faz-se necessário compreender, conforme sugere T. FURNISS 132 que existe um padrão interacional pseudo normal entre a vítima e o perpetrador. Este padrão interacional á análoga ao existente entre a pessoa que abusa, o guarda do campo de concentração nazista e o terrorista que sequestra, alegando o autor, que estas pessoas não são apenas aquelas que ameaçam a vida e a integridade da vítima. Elas são, no momento dado, os provedores pervertidos da vida, responsáveis pela manutenção e cuidados externos e inclusive de atenção emocional positiva. E prossegue o autor 133: [Esse elemento é crucial para a compreensão dos vínculos e lealdades possivelmente bizarros entre vítima e perpetrador, e do fato da vítima começar a falar da linguagem do carcereiro. Podem emergir formas de lealdade e apego extremamente difíceis de se compreender e aceitar. Lidar com essas lealdades, vínculos e culpa constitui um elemento central na terapia do abuso sexual da criança.]

            Uma vez que no abuso sexual, há a excitação fisiológica da pele, além do aspecto aversivo que isto possa sugerir, não se pode ignorar ou negar, que as crianças e adolescentes podem ficar sexualmente excitados, e se faz absolutamente necessária uma escuta profissional e humana, sem julgamentos, para estas sensações, conforme afirma T. FURNISS134: É mais difícil para os profissionais suportarem a ideia de que algumas crianças e adolescentes geralmente ficam sexualmente excitados. Permitir que uma criança fale sobre aspectos de excitação pode despertar respostas extremamente hostis nos adultos. Estas respostas são parte da negação dos profissionais e outros adultos da natureza sexual do abuso sexual.]

            Aliado ao fator da excitação sexual, encontra-se o aspecto fisiológico do alívio de tensão ao término do ato abusivo, tratado por muitos autores como a traição que o próprio corpo da criança deflagra contra si mesma. Este alívio é análogo ao que a criança espancada sente durante à sua vitimização. O corpo tem seus próprios mecanismos de regulação, independentes do quão atrozes possam estar sendo as feridas nele impressas.

Tais mecanismos fisiológicos podem instaurar modelos de funcionamentos psíquicos e corporais com características aditivas, ou seja, pela continuidade e frequência do processo abusivo, a criança pode passar a formar vínculos sexualizados, com a concomitante formação de hábito e gratificação secundária. Este caráter de adição sustentaria um apego ao agressor.

Há portanto, um complexo padrão de desenvolvimento de interdependência e apego entre a pessoa que abusa ou o carcereiro e a vítima. A criança passa à conviver com o agressor diariamente, durante um longo período de tempo, em geral, segredando o abuso, o que inevitavelmente acaba por estabelecer uma espécie de cumplicidade ainda que sombria.

A criança pode vir a sentir-se especial para o agressor, uma vez que ela é a detentora da satisfação do adulto, levando-a a um senso de ego inflado, em detrimento de suas reais necessidades afetivas, induzindo-a à perpetuar o abuso. Novamente, nas palavras de T. FURNISS135:

[O abuso sexual pode levar a criança a um papel de pseudo parceria que ela pode querer manter, mesmo ao custo de confusão e perturbação emocional. O forte apego das vítimas em relação à pessoa que abusa é, em alguns casos, um reflexo do fato de que a atenção abusiva que a criança obtém é a atenção e o cuidado parental mais importante, ou inclusive o único, que recebe. Apesar dos possíveis efeitos prejudiciais, as crianças podem não querer desistir desse relacionamento, que sentem ser positivo enquanto não têm experiências alternativas. A força desse apego pode ser vista de modo especial em famílias com um único progenitor, é também a pessoa que comete o abuso.]

            Outro fator que estreita a relação do agressor com a criança abusada, consiste na própria dinâmica do abuso, ou seja, nos aspectos interacionais do segredo, expressos nos rituais de entrada e saída. Estes rituais delimitam o tempo de duração do ato abusivo, demarcando seu início, dito ritual de entrada e definindo seu fim, tido como ritual de saída. Estes demarcadores, preservam o agressor do ato da vitimização, conforme descreve T. FURNISS 136:

                [O espaço de tempo completo entre o exato início do ritual de entrada e o exato final do ritual de saída marca o período de tempo do abuso sexual. Depois do abuso, a pessoa que o cometeu e a criança cortam fora de sua realidade mutuamente reconhecida. O período de tempo e a experiência entre os rituais de entrada e saída, como se aquilo nunca tivesse existido. Elas se tornam as unidades de quinze minutos perdidos e dissociados na vida da criança.]

             O agressor busca dissimular a existência do abuso, acrescentando a este hiato de tempo, outros fatores que favoreçam a negação do ato abusivo, tais como, o uso do silêncio, da escuridão, contato físico ritualizado, evitação do contato visual e muitos aspectos ritualizados de interação. Tais recursos criam a sucessiva divisão temporal na pessoa que comete o abuso, transformando-a em outra pessoa, possibilitando que o abusador seja um pai carinhoso, antes e depois do abuso, e que durante o abuso, torna-se “outra pessoa”. Logo, o mesmo ser humano pode ser uma pessoa-pai carinhoso, em um dado momento e alguém assustador que abusa, durante o abuso. Este processo de ocultação e negação, preserva a relação da criança com a pessoa que precisa amar e respeitar.

Tal dissociação temporária da realidade, pode levar a criança ferida a identificar-se com o agressor, reproduzindo a mesma dinâmica com crianças da geração familiar seguinte. Uma vez que tais episódios encontram-se dissociados do consciente e intensamente vivos e realizáveis no inconsciente, este “esquecimento” negação é o fator mais dramático para que a maldição familiar do Abuso Sexual se perpetue.

Igualmente a reincidência das vitimizações, num contexto da Criança Combinada, anteriormente descrita, leva a criança-adulto-ferida à transformar-se em Perseguidor Parental, por um processo inevitável de eleição de vítima expiatória aleatória, para aliviar a dor sofrida. É preciso lembrar das vítimas não vingativas, potenciais inconscientes que deflagram a busca de novas vítimas.

Azazel, o Imolado, também transformou-se em Azazel, o Perseguidor. Mutações de vítimas em algozes são depoimentos recorrentes na literatura psicológica. A sociologia igualmente relata episódios históricos-sociais nos quais grupos oprimidos frente ao poder, tornam-se opressores. Uma dinâmica sombria; mesmo que de forma inconsciente, acionando mecanismos de destruição, na maioria das vezes desconhecidos do próprio indivíduo-ferido.

Conforme demonstram o amplo espectro de destruições veladas, descritas no capítulo IV.

  1. LANCETTI, A. SAÚDE E LOUCURA, GRUPOS E COLETIVOS. AFILIADA. São Paulo. 1993. pp. 166
  2. ABUSO SEXUAL DA CRIANÇA. Porto Alegre. Arte Médicas. 1993. P. 36.
  3. Idem, Ibdem.
  4. Op. Cit. pp. 36-37.
  5. Op. Cit. P. 37.
  6. Op. Cit. p. 33.