Caixa de Areia – Imagens do Self

“A terapia na caixa-de-areia foi criada por Dora Kalff em Zurique e levada para os estados Unidos “Sandplay” por Estelle Weinrib, daí conhecendo ampla difusão. Vários grupos, na Europa e na América, tem sido formados para estudá-la e é crescente o interesse e a aplicação desta técnica no Brasil.

“Trata-se de uma forma de terapia não-verbal e não racional que atinge um nível profundo da psique: nela,  os pacientes criam cenas tridimensionais, cenários ou desenhos abstratos em uma caixa de tamanho específico utilizando areia, água e um grande número de miniaturas…utilizada como técnica central por Kalff e como técnica auxiliar por Estelle Weinrib, psicanalista de formação junguiana, a terapia na caixa-de-areia tem se revelado um excelente instrumento tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento psicológico. Ao elaborar um cenário, o paciente fornece um constante retrato de seu estado emocional e um claro espelho de seu desenvolvimento analítico.”

O presente resumo foi realizado a partir da transcrição literal de trechos do livro Imagens do Self–O processo terapêutico na caixa-de-areia, de Estelle L. Weinrib (Summus. São Paulo, 1993)

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A CAIXA-DE-AREIA:

            Dora Kalff começou a reconhecer estágios de desenvolvimento nos cenários na areia como nítidas expressões de uma maturidade psicológica que estava ocorrendo na criança. Mas ela não tinha nenhum esquema conceitual de referência para explicar os fenômenos.

Depois de assistir a uma conferência dada por Erich Neumann, sobre suas idéias a respeito do desenvolvimento psicológico na primeira infância, Kalff e Neumann tiveram conversas que convenceram a ambos de que a prática de Kalff estava confirmando e comprovando as formulações teóricas dele. Neumann, que nunca clinicara com crianças, havia desenvolvido os conceitos de uma forma puramente teórica. Planejaram fazer alguma pesquisa em conjunto mas, infelizmente, logo após esta conversa, Neumann veio a falecer.

Assim, Kalff começou a fazer terapia com os adultos e descobriu que ocorria um processo de desenvolvimento semelhante ao das crianças, indicando que esta terapia operava num nível bem primitivo do inconsciente.

         Posteriormente, Kalff conheceu o renomado erudito zen, D. Z. Suzuki, e trocou idéia com ele. Na prática de Kalff de adiar a interpretação, Suzuki viu um paralelo com a prática zen, pela qual o discípulo – aquele que procura a sabedoria – não recebe uma resposta direta à sua pergunta mas é, ao invés disso, jogado de volta à sua imaginação e recursos internos. (p. 24)

“A LINGUAGEM DO INCONSCIENTE É A IMAGEM” (p. 76)

Re-nascimento: à medida que começa a centralização e se aproxima a constelação do Self, libera-se uma considerável quantidade de energia física e psicológica e há uma sensação de bem-estar, de renascimento.  Penso que a palavra aplicável seja nascimento. Psicologicamente, está-se com cerca de dois anos, cheio de energia e preparado para canalizá-la para qualquer projeto, viável ou inviável. (p. 76)

Precaução: é importante encontrar um foco para esta energia – alguma saída criativa e significativa. Se um canal criativo independente não surgir de forma espontânea, talvez o terapeuta possa sugerir algo mais estruturado: cursos para aprender algum ofício ou novas habilidades, dança ou talvez alguma atividade corporal. Os corpos dos pacientes ficam mais despertos e convém utilizá-los de maneiras novas e dinâmicas. Se o terapeuta não reconhecer o fenômeno energético, se não for encontrada nenhuma saída adequada, há o perigo real de INFLAÇÃO ou mau uso da energia, com conseqüências graves. Isso é especialmente verdadeiro, já que uma parte tão grande do processo ocorre inconscientemente. Ressalta-se a importância da vivência do processo pelo terapeuta para poder identificar e empatizar com o paciente.(p. 77)

INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS:

– Pacientes profundamente introvertidos ou muito tensos tendem a relaxar;

– Pacientes hiperativos ou histéricos tendem a se acalmar, como se o fato de tocar uma realidade concreta e tridimensional tivesse por si só um efeito calmante;

– Pacientes que tendem a verbalizar, racionalizar ou intelectualizar demais, bem como aqueles que têm dificuldade em verbalizar qualquer coisa, encontram uma forma alternativa de expressão;

– Pacientes intuitivos se beneficiam com o aspecto concreto do processo, que tende à brecá-los e “colocá-los com os pés no chão”

O EGO

No fundo, as naturezas da cura psicológica e da CS são um mistério. Podemos apenas conjecturar sobre elas e reconhecer que cura não é igual a CS, da forma como tendência a pensar sobre CS, isto é, como um acréscimo da CS do ego. Se a CS do ego fosse tudo, o insight e a percepção poderiam modificar nossas respostas emocionais e nosso comportamento, mas, com demasia freqüência, não é isso que ocorre.

Parece-me que, em grande parte, a função da CS do ego é nos oferecer opções de resposta comportamental aos nossos estados emocionais baseados em instintos autônomos, os quais – apesar de nossos maiores esforços – permanecem bem independentes da nossa vontade: nem desejamos nos livrar de reações sentimentais e emocionais porque elas dão profundidade, cor e intensidade à existência. São a própria essência da vida. (p. 34)

CONSCIÊNCIA MATRIARCAL X EGO

Neumann define dois tipos de CS. Neumann fornece uma hipótese plausível para a cura psicológica não verbal, não racional, ao postular dois tipos de CS.

CONSCIÊNCIA DO EGO:  define-a como relativamente autônoma, caracterizada pela razão, julgamento e ordem. Sugere que a CS do ego, como nós a conhecemos, evoluiu de uma camada da psique que ele chama de patriarcal, que foi um desenvolvimento posterior para toda a humanidade e que existe nas mulheres, assim como nos homens.

CONSCIÊNCIA MATRIARCAL: tem suas raízes num nível muito mais profundo, antigo e arcaico da psique e que também existe em todos nós, homens e mulheres. (Neumann, 1994)

Trata-se de um processo semi-consciente, no qual não existe vontade do ego. Está sujeito ao ICS e reflete processos ICS; no entanto, contém qualidades de percepção, compreensão não verbal, contemplação, concepção, circum-ambulação, realização e criação: um tipo de estado psicológico de incubação ou gravidez. Acredito que todas essas são exatamente as qualidades da experiência da técnica da caixa-de-areia que tendem a apoiar a idéia de que esta última realmente opera num nível matriarcal e que é aí que ocorre a cura.

A CS matriarcal é descrita com uma perceção e atenção observadora, em vez de pensamento ou julgamento direcionado, e nota que é afetada por sentimento e intuição. Com relação à CS patriarcal, sua função é focalizar a libido num evento psíquico específico, intensificando seu efeito até que atinja a CS. O ego mental patriarcal usa então a experiência como base para a ação ou para a formulação de conclusões abstratas e a expansão da CS.

Neumann (1954, PP. 91-92) também sugere que a cura se encontra no nível matriarcal da CS:

“É o poder regenerador…que, na escuridão da noite ou à luz da lua,

Desenvolve o seu trabalho, um mistério dentro de um  mistério,

A partir de si mesmo, da natureza, sem nenhuma ajuda do ego mental.

…é (na)escuridão que ocorre a recuperação e também aqueles eventos

na alma os quais, na obscuridade, por processo que só o coração conhece

permitem que as pessoas “superem” suas crises insúveis”

Outro aspecto, também muito importante da terapia da caixa-de-areia e de suas propriedades curativas, é a formulação de Neumann referente ao desenvolvimento do ego: a constelação e ativação precoces do Self entre o nascimento e o terceiro ano de vida são um pré-requisito para o desenvolvimento de um ego saudável.

SELF E EGO NO DESENVOLVIMENTO HUMANO

A importância da relação mãe-filho humanos

Embora o self esteja presente no nascimento, sua evolução como uma força positiva depende de uma proximidade emocional e física ininterrupta entre a mãe (ou substituta da mãe) e a criança, que ele chama de unidade mãe-filho. Este vínculo mãe-filho imperturbado é vital, principalmente durante o primeiro ano de vida da criança, enquanto ela está ano que Neumann chama de estado urobórico pós-uterino, no qual o Self da criança ainda está simbolicamente contido na mãe. Qualquer ruptura na unidade mãe-filho perturba a separação normal e oportuna do self da criança daquele da mãe e resulta no desenvolvimento de um ego ferido, dependente e carente entre as idades de um e quatro anos; esta condição de ego incapacitado pode durar a vida inteira.

O ego carente, com insuficiente apoio interno da força organizadora e reguladora do Self, é uma presa fácil do narcisismo, da neurose e da psicose. Somente com um Self positivamente ativado é que pode haver suficiente apoio interno para permitir o desenvolvimento de um ego autêntico, capaz de separar-se psicologicamente da mãe (e também do pai) e estabelecer um relacionamento adequado e individual, tanto com o mundo interior quanto com o mundo exterior.

O ego carente sente-se sobrepujado por pressões ambientais e escolhe uma entre várias maneiras. Pode seguir um caminho exageradamente introvertido, retirando-se para dentro da fantasia, com perigo de ser inundado pelo ICS.  Ou pode perder qualquer senso do seu interior por um ajustamento exageradamente extrovertido, cedendo às pressões para agir, ser bom etc. Lembro de uma pacinte que referia a si mesma como “um urso dançante” e um outro que se chamava de “um garoto de canto e de dança”. Em alguns casos, a função adaptativa primária está superdesenvolvida “as custas das outras funções, ou o ego fraco pode fazer um ajustamento totalmente falso pela adoção de qualquer função que se preste à aceitação do meio ambiente. Isso frequentemente ocorre com tipos sentimento que adotam o pensamento como função principal.

***Através da sua técnica não-interpretativa e não-verbal, a caixa-de-areia estimula a reconstituição de uma unidade psicológica mãe-filho, permitindo a constelação do self e levando ao desenvolvimento de um ego mais forte. Estimula uma regressão terapêutica ao nível matriarcal, que Goethe caracterizou como o “reino das Mães”, onde pode ocorrer a cura e a renovação psicológica.(p. 35-6)

No que se refere à caixa-de-areia, a meta, é fornecer um espaço materno ou útero psicológico, uma metáfora emocional para a unidade urobórica mãe-filho. Neste espaço seguro e protegido, pode ocorrer a cura da ferida psicológica interna, o Self pode ser constelado e a criança interna redescoberta, com toda a sua potencialidade de criatividade e renovação. (p. 37)

Dica para interpretação: Em “A criança” (p. 136), Neumann sugere que o surgimento do ego reflete o desenvolvimento da personalidade, do nível urobórico matriarcal ao nível patriarcal da psique.

Aqui a terapia na caixa-de-areia parece comprovar os constructos de Neumann. O aparecimento de símbolos vegetativos terra-água, seguido do aparecimento do simbolismo patriarcal céu-sol, indica movimento para fora do matriarcado. O aparecimento do simbolismo patriarcal nos cenários, tanto de homens como de mulheres, parece marcar o surgimento de um ego relativamente independente. À medida que o ego de desenvolve, símbolos masculinos e femininos aparecem no mesmo cenário, relacionando-se, indicando uma interação mais equilibrada e dinâmica entre essas características, uma união dos opostos na personalidade. (p. 75)

INSTRUÇÕES PARA O USO DA CAIXA-DE-AREIA

INTERPRETAÇÃO E APRESENTAÇÃO DOS SLIDES

Um cenário na areia NUNCA É DESMONTADO NA PRESENÇA DO PACIENTE. Quando ele sai com seu cenário intato, permanece uma impressão a partir da qual algo novo pode evoluir. Várias vezes os pacientes dizem que carregam a imagem com eles, achando-a confortadora. Às vezes, eles mudam a imagem mentalmente. Outras vezes, planejam seu próximo cenário a partir do anterior. (p. 28)

Destruir o cenário na presença do paciente seria desvalorizar uma criação completa, quebrar o vínculo entre ele e o seu eu interior e o vínculo silencioso com o terapeuta.

São feitos slides do cenário após a saída do paciente. A partir de um certo momento, quando o ego se tornou suficientemente forte para integrar adequadamente o material ou quando for de mútuo acordo, o terapeuta projeta os slides para o paciente. Neste ponto, explicações, amliações e interpretações podem ser dadas e perguntas são respondidas. Frequentemente, mesmo nestes casos, pouco precisa ser dito, pois os próprios slides parecem falar diretamente ao paciente, já que ele vê cenários do seu próprio processo de desenvolvimento. Então, num certo sentido, o processo na caixa-de-areia pode ser comparado a um longo sonho ou à imaginação ativa a serem trabalhados. (p.29)

 

         Interpretações adiadas até depois da constelação do Self podem então ser ouvida e gravadas na memória, de uma maneira diferente, a partir de uma sensação de segurança interna. O ego está pronto para integrar a informação e para ser responsável pelo que conhece. O conhecimento e o insight se tornam úteis, em vez de usáveis.  Todos nós conhecemos analisandos que “falam” de uma boa análise, que “entendem” os seus complexos e se “compreendem”, mas cujo comportamento e relacionamento com eles mesmos e com outras pessoas tendem a dar à psicanálise e à psicoterapia em geral uma má reputação.

Quando o Self é operacional e colaborador, é menor a chance de se identificar com o que os outros dizem ou de ser indevidamente influenciado pelo terapeuta. (p. 75)

OITO CONCEITOS BÁSICOS

1.- O desenvolvimento psicológico do indivíduo é determinado  arquetipicamente e, sob circunstâncias normais, é igual para todos (Neumann, 1954);

2.- A psique é constituída pelo consciente e inconsciente e pela interação entre eles, e é um sistema auto-regulador teleologicamente orientado (Segundo o Aurélio, é o estudo que leva em consideração a finalidade do processo;  a finalidade interfere no processo, conforme minha compreensão).

Contém, portanto um impulso em direção à totalidade e tem tendência a se equilibrar através da função compensatória do inconsciente. O impulso para a realização e para a totalidade (Self) sugere que a psique, assim como o corpo, têm, sob circunstâncias adequadas, a tendência de curar a si própria. (Jung, A natureza da psique, vol. 8, pp. 159-234);

3.- O Self é a totalidade (consciente e inconsciente) da personalidade e seu centro diretor. É o fator organizador central da psique, da qual o ego, que é somente o  centro da consciência, se desenvolve.

Jung diz : “O ego está para o Self assim como o movido está para aquilo que move, ou como o objeto para o sujeito…O self, assim como o inconsciente, é algo existente “a priori”, do qual brota o ego. É por assim dizer, uma prefiguração inconscinte do ego” (Coleção das obras, Vol. 11, p.259, par. 391).

À medida que a CS moderna evoluiu, o ego ganhou preponderância sobre o Self, especialmente  no desenvolvimento intelectual do Ocidente. A primazia do intelecto resultou numa personalidade desequilibrada, exageradamente racional, sujeita a neuroses. A autonomia do ego é limitada, já que suas raízes estão no ICS.

O ego é vulnerável às influências dos complexos emocionalmente carregados que agem de maneira compensatória. Quanto mais o ego tenda suprimir ou ignorar um complexo ativado, tanto mais o complexo irá ativar o controle do ego.

Uma das principais metas da análise junguiana e da terapia da caixa-de-areia é a de relativizar o ego fazer com que o ego ceda a sua dominação ilusória e restabeleça uma ligação e um relacionamento duradouro entre o consciente e o inconsciente.

4.- A reinterpretação da teoria do incesto por Jung sugere que: assim como a mãe é a fonte da vida física, também o inconsciente é a fonte da vida psicológica. Portanto, a mãe e o inconsciente podem ser vistos como símbolos femininos equivalentes. O impulso de retorno à mãe pode ser visto como um impulso de volta ao ICS. Sob certas circunstâncias, isso pode ser regressivo, levando à neurose ou à psicose; doença psicológica ou morte. Em outras circunstâncias, ou seja, no processo de individuação, a regressão pode ser temporária e em prol de uma renovação psicológica  e do renascimento simbólico (Coleção, vol. 5, Parte II, p. 253).

Após ser atingido um grau de maturidade (isto é, desenvolvimento do ego e separação da mãe pessoal), Jung vê o impulso para religar com a mãe simbólica (o ICS) como necessário no processo de individuação.

         A SEPARAÇÃO DO ICS, A RELIGAÇÃO E O RELACIONAMENTO DURADOURO COM ELE SÃO AS METAS DA ANÁLISE JUNGUIANA E A ESSÊNCIA DO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO. Durante o processo psicoterapêutico, a separação e a religação podem ocorrer, e ocorrem, simultaneamente.

5.- Do meu ponto de vista (da autora): CURA PSICOLÓGICA E EXPANSÃO DA CONSCIÊNCIA, embora relacionados, não são idênticos:

         A CURA implica que ocorreu um ferimento e um possível prejuízo na função orgânica natural e, em segundo lugar, que o ferimento foi medicado e o funcionamento natural foi restabelecido.

CONSCIÊNCIA implica saber o que se está sentindo, pensando e fazendo, e a capacidade de fazer escolhas de suas ações e comunicações que estejam relativamente livres do controle dos complexos.

RESUMINDO, a cura psicológica envolve a restauração da capacidade de funcionar normalmente, enquanto que a consciência do ego, está relacionada com a consciência e com a escolha do que estamos fazendo ao agirmos. Uma CS ampliada, embora possa contribuir para a cura, não a garante. Por outro lado, a cura, através do retorno da psique ao seu funcionamento natural, cria uma condição na qual o insight e a CS, que são normais à personalidade humana, irão desenvolver-se organicamente (Weinrib, 19830.

6.- Neste contexto, a cura psicológica é um fenômeno emocional, não racional, que ocorre no nível matriarcal da CS, conforme teorizado por Erich Neumann e que Kalff chama de nível pré-verbal. A cura neste nível permite a renovação da personalidade e a expansão da CS.

7.-  A  cura e a expansão da CS, são metas desejáveis em psicoterapia. Acredito que o emprego da caixa-de-areia aprofunda e acelera o trabalho terapêutico porque dois processos estão ocorrendo. Esses processos são intimamente relacionados, porém separados. Durante o mesmo período em que uma análise verbal dos complexos, sonhos, personalidade e problemas de vida está progredindo em direção à CS, a técnica da caixa-de-areia estimula uma regressão criativa, que permite a cura exatamente devido a uma interpretação tardia e o desencorajamento deliberado de pensamento dirigido.

Na prática, os dois processos parecem estar interligados e se complementam. Embora os pacientes possam descrever imagens oníricas na caixa-de-areia, frequentemente certas imagens ou temas aparecem na cixa-de-areia antes de aparecerem nos sonhos. Isto talvez ocorre porque a preparação de um cenário na areia é uma representação de uma realidade sensorial, uma ação concreta que estimula a atividade arquetípica, que então se manifesta em sonhos (ou talvez diretamente, mediante uma mudança de atitude e de comportamento) (Weinrib, 1983)

8.- O processo natural de cura pode ser concretamente ativado pelo jogo terapêutico e pela estimulação dos impulsos criativos através das condições fornecidas pelo “espaço livre e protegido”, conforme proposto por Kalff.

A visão Junguiana da função do SÍMBOLO é que ele é um AGENTE CURATIVO que age como ponte para reconciliar os opostos; isto é, pode ser considerado como uma tentativa do ICS de leva a LIBIDO regressiva para um ATO CRIATIVO, mostrando assim o CAMINHO para a solução do conflito.(p.31-34)

ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO

Refletidos nos cenários na CAIXA-DE-AREIA

De uma maneira geral, o papel do terapeuta na caixa-de-areia é de ouvir, observar e participar empaticamente. No entanto, deve-se destacar que o sucesso do trabalho depende não somente da compreensão cognitiva que o terapeuta tenha do sentido simbólico do cenário, como também da familiaridade com os estágios de desenvolvimento do processo que se refletem no cenário.

         Este estágios incluem: pelo menos uma solução parcial dos principais complexos; uma manifestação da totalidade e, com ela, uma experiência ou intimação de numinosidade suprapessoal que geralmente acompanha uma constelação do Self, o surgimento de um elemento contra-sexual diferenciado (anima/animus); e uma nova atitude do ego com relação à vida transpessoal e cotidiana. Kalff chama isso de surgimento de um ego relativizado capaz de se relacionar produtivamente tanto com mundo interior como com o mundo exterior. (p. 38)

POSSÍVEIS SEQUÊNCIA DE ESTÁGIOS REFLETIDOS NOS CENÁRIOS:

Fase : os primeiros cenários do processo na caixa-de-areia são geralmente realistas e, como em sonhos iniciais, podem dar indicações dos problemas e de suas possíveis soluções;

2º  Fase  :   os cenários da segunda fase indicam com freqüência rápida penetração nos níveis mais profundos da personalidade, isto é, na sombra (inconsciente pessoal);

 Fase caótica : os cenários podem ter agora uma forma caótica, como se o paciente tivesse entrado no seu próprio submundo e atingido energias brutais e intocadas. Conforme o processo progride, começa-se também a ver vários graus de solução para os problemas e complexos;

Fase do self : a fase caótica pode liberar energias permitindo um maior aprofundamento na psique, ao ponto que o Self ou a totalidade podem ser constelados e tocados.

Esse estágio no nível mais profundo pode ser representado na caixa-de-areia de várias maneiras, mas geralmente aparece em imagens de centralização ou união dos opostos ou símbolos abertamente religiosos, tais como Cristo, Buda, mandalas etc. Uma experiência numinosa ocorre juntamente com o despertar de um impulso religioso. O paciente tem a sensação de ter chegado “em casa”, de ter sido guiado por um poder suprapessoal e ocorre uma mudança paradoxal.

Fase da relativização do ego: a consciência (ego) do paciente, tendo experimentado o Self maior, desiste de sua autonomia e, paradoxalmente, no mesmo momento, sente-se mais forte devido à sensação de apoio dado por aquele mesmo poder transpessoal  ao qual se rendeu. A pessoa ganha, então, um novo senso dde ordem e segurança e do seu próprio valor. (…) è como se o ego encontra-se o seu tamanho e função corretos. O ego não mais se considera como o poder supremo dentro da personalidade, mas como evoluindo do ICS e diariamente relacionado com ele.

Após a constelação do Self, pode-se ver o surgimento do ego renascido nos cenários na areia.

Os cenários subseqüentes assumem um caráter mais criativo. São mais organizados e o paciente se relaciona com eles de forma diferente. O processo da caixa-de-areia torna-se progressivo, já que o ego assume uma postura mais ativa, tanto em relação ao mundo interior como em relação ao mundo exterior. (p.71-3)

Após o surgimento do ego, figuras ou símbolos do sexo oposto começam a aparecer de maneira regular e ordeira, indicando a diferenciação masculino-feminino, fatores da contraparte sexual anima/animus.

 

Dicas : às vezes, a diferenciação dos componentes da sombra ou da contraparte sexual anima/animus, começam no nível vegetativo bem primitivo, com animais do tipo primal. Esses conteúdos evoluem para níveis superiores de animais e, depois, para figuras humanas. (p. 73-4)

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