Desencontros do “Amor Materno” e a geração de “Mães Tóxicas”

               “No momento em que uma criança nasce, a mãe também nasce. Ela nunca existiu antes. A mulher existia, mas a mãe, nunca. Uma mãe é algo absolutamente novo…” (Osho). Efetivamente, a “Maternidade” é composta de muitos nascimentos, nos quais novos papéis são gerados, novos sistemas familiares são definidos, surgindo os “pais”, “irmãos”, “avós”, “tios”, ampliando a gama de relacionamentos e a complexidade familiar. Mas o nascimento de uma “mãe” especificamente, ganha contornos especiais, pela sua importância no desenvolvimento do bebê e pelas consequências que pode acarretar para a saúde psicológica da nova geração.

Para a construção da maternidade, toda e cada mulher passa inevitavelmente a buscar suas referências afetivas iniciais, inscritas nas “memórias da Alma”, a partir de seus primeiros cuidadores e figuras de confiança. A presença ou ausência de um pai, a possibilidade ou não, da existência de um homem na vida da mulher-mãe também repercutem no desenvolvimento psíquico do(a) filho(a) recém aceito naquele peculiar universo familiar.

E da mesma forma que existem muitas histórias familiares já escritas, muitas outras vão se delineando a cada estilo de maternagem que se inicia e diferentes mães vão se formando, com seus modelos de acolhimento, com suas concepções de educação, com seu mundo interno e com a sua visão de mundo externo, enfim, com toda a bagagem existencial com que “apresentará o mundo” para a futura criança.

Vários perfis de mães podem ser definidos, e, infelizmente, a maioria deles são talhados mais em função dos equívocos maternos do que em suas tentativas de acerto, o que (felizmente) não significa que há erros absolutos e irremediáveis.  Contudo, torna-se imprescindível entender que os desvios maternos estão, na maioria das vezes, ancorados em demandas inconscientes, por isso, mesmo mães bem intencionadas, correm o risco de ferir seus filhos (as).

Mas no universo das relações afetivas sempre existem possibilidades redentoras, sempre se pode transformar um “desencontro emocional” em um “potencial de crescimento”. A maioria das mães ao perceberem que inconscientemente estão prejudicando seus filhos(as), ficam chocadas e buscam formas de atenuar ou resolver os possíveis danos, já os filhos(as) podem perceber e compreender o engano de suas mães e deles se libertarem.

O propósito da presente discussão, portanto, é o de descrever alguns padrões maternos disfuncionais, que pelas consequências negativas com que marcam a vida dos filhos(as), foram chamadas de mães tóxicas. Para tanto, alguns perfis de mães serão apresentados e discutidos, os quais, estão mais relacionados a nomenclaturas e análises psicológicas, uma vez que são tênues os aspectos que as distinguem, bem como, mais de uma das categorias podem coexistir em uma mesma mãe. Óbviamente que muitos destes aspectos podem também estar presentes nos pais, mas a ênfase no momento será dada para as mães, em função da sua possibilidade de gerarem novas mães, ao criarem mulheres que precisam de uma identificação materna para conduzirem e talharem as novas gerações.

Portanto, há tantos desencontros e equívocos na tessitura da relação mães/filhos(as), que descrever todas as variáveis é quase impossível, todavia a descrição dos casos mais marcantes ou caricaturais, torna-se possível e um tanto esclarecedor.

Tipos de mães tóxicas mais frequentes:

Uma das mães bastante conflitivas, são as chamadas as mães excessivas, que tornam sua existência legítima a partir de seus filhos (as). Que vazias de si mesmas precisam de suas “crianças” (não importando a idade que tenham!) para darem sentido a sua vida, buscando tornar-se onipresentes na vida dos filhos, seja protegendo-os ou requisitando sua atenção, sugando sua vitalidade e aniquilando suas escolhas.

Na infância, as mães excessivas costumam ser confundidas com as mães apenas dedicadas, mas é na fase adulta dos filhos que mais se percebe os danos causados por este sufocante “amor materno”, pois os filhos(as) adultos se veem enredados com as cobranças maternas, veladas ou explícitas, incapazes de desvencilharem-se da teia emocional que as mães excessivas tecem em torno de suas presas. Neste tipo de mães, é notória a toxicidade, que é expelida na forma de uma inebriante e incapacitante proteção ou na forma de cobranças hostis e uso constante dos sentimentos de culpa.

Há ainda, as denominadas “mães de meninas e mães de meninos”, ou seja, mães que conseguem ser (in)adequadas conforme o sexo da sua criança. Possuem maior ou menor facilidade e disponibilidade emocional para seus filhos homens, enquanto podem irritar-se com muita facilidade com suas meninas. Talvez porque vejam nas meninas uma extensão de si mesmas, projetem nelas suas contradições femininas e nos meninos depositem suas expectativas de poder e proteção. Ou porque fazem das suas filhas, suas próprias mães, também requerendo delas proteção e nutrição.

Há também, “a mãe voluntariamente só”, mulheres que, ao contrário, possuem dificuldades em lidar com os homens, evitando compartilhar com eles, a educação e/ou afeto de seus filhos(as), deixando-os órfãos emocionalmente de pais, ainda que com eles convivam fisicamente. A segregação do pai é insidiosa e persistente, dentro de uma necessidade intensa de assumir sozinha a criação do filho(a). Rivalizam e menosprezam seus companheiros, evitando que vínculos afetivos sejam estabelecidos.

Existem ainda e, com muita frequência, a “mãe culpada”, mães que se sentem divididas entre o anseio de estar no mercado de trabalho e a necessidade de cuidar dos filhos. Encontram-se sempre deslocadas, pois quando estão trabalhando, cobram-se que deveriam estar em casa com as crianças, e quando estão com os filhos(as), pensam que deveriam estar trabalhando, estudando ou aperfeiçoando-se, em suma, investindo em suas carreiras. Divididas, podem gerar confusão emocional nos seus filhos(as), uma vez que a culpa as impede de amar a si mesmas, sua profissão e seus filhos(as). Como esta é uma dificuldade bastante comum para as mulheres modernas, caberia enfatizar que o nível de prejuízo às crianças depende da intensidade da culpa e do quanto esta afeta a estabilidade emocional da mãe.

Outras mães, acabam sendo tóxicas, por transtornos psíquicos que inviabilizam o estabelecimento de uma relação saudável com seus filhos(as). São as mães deprimidas ou emocionalmente instáveis, que geram um meio familiar tenso e inseguro, nos quais as crianças estão sempre se sentindo inadequadas ou ansiosas, frustradas no seu permanente intento de agradar a mãe.

 

Há as “mães imaturas”, para as quais cuidar das crianças é um fardo imenso. Talvez nunca deixaram de ser filhas e, carentes de atenção e cuidados, aceleram o amadurecimento dos filhos(as), tornando-os adultos antes do tempo ou eternas crianças como elas próprias.

Já as “mães manipuladoras” por excelência, que fazendo uso da culpa e da chantagem emocional, induzem os filhos (as) a abrirem mão de suas necessidades ou planos de vida, tornando-os cativos das vontades e caprichos maternos.

E o que dizer das “mães perfeccionistas”, exigindo de si mesmas e de sua prole expectativas de perfeição inumanas, gerando nos filhos a sensação de que nunca estão fazendo ou sendo bons o suficiente, dentro da rigorosa crítica materna.

Existem as “mães possessivas”, que exigem exclusividade no amor dos filhos(as), impedindo que estabeleçam vínculos com as demais pessoas, sejam familiares, amigos, relações amorosas, ou qualquer outro interesse, que venha a absorver a atenção dos filhos(as) e que não estejam circunscritos à existência da mãe.

Há também as “mães negligentes”, incapazes de prover as necessidades básicas da criança, deixando-as abandonadas a sua própria insegurança infantil, órfãs de mães vivas, gerando nos filhos(as) um sentimento de abandono agudo e permanente.

A atitude das mães acima referidas encontram-se muito no âmbito do que se pode chamar de abuso emocional, contudo há ainda as “mães declaradamente abusivas” ou mães sádicas que infringem abusos físicos ou agressões verbais a seus filhos, alegando educa-los, convencendo-os de que apanham e/ou são humilhados, por efetivamente serem maus ou estarem constantemente errados. Neste contexto de abusos, ainda há o abuso sexual incestuoso, menos comum e mais envolto em uma atmosfera de silêncio e segredo.

Infelizmente apesar de extremos, estes conflitos descritos são bastante comuns, mas de difícil intervenção devido ao caráter sagrado com que o papel da mãe se reveste. Muitos adultos não se permitem falar ou questionar os comportamentos maternos, acreditando-se ingratos ou desleais caso ousem duvidar das boas intenções de suas mães. Importante portanto, é distinguir que a ideia de “Mãe” é realmente mítica e arquetípica, mas as mães são humanas e falíveis, sujeitas a todas as dificuldades e incongruências humanas. Falar de sua humanidade portanto, não tem a intenção de julgá-las ou depreciá-las, mas de libertar os familiares enredados nestes desenganos afetivos.

Dar voz e lançar luz sobre os “tipos maternos sombrios” possibilita que as feridas decorrentes de sua criação, sejam percebidas, conscientizadas e superadas para que não gerem novas feridas familiares. Cada mulher que se liberta de seus conflitos, autoconhecendo-se, liberta suas sucessoras femininas de perpetuarem as mesmas dores.

 

Referências:

– Serrurier, Catherine. Elogio às mães más. São Paulo. Summus, 1993

– Forward, Susan & Buck, Craig. Pais tóxicos: como superar a interferência sufocante e recuperar a liberdade de viver. Rio de Janeiro. Rocco, 1990

 

 

 

 

 

 

 

 

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